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Lição 12: A Evangelização Real na Era Digital (Adultos)


Introdução
Peço licença, para transcrever o estudo realizado por meu filho, Gunar Berg, quanto à evangelização na era da informação.
O mundo está mudando rapidamente. Você já pensou nisso? Tenho certeza de que sim. Mas até aí, nada de novo, pois tudo vem mudando desde que o mundo é mundo. As culturas são vivas e estão em constante transformação. As sociedades acomodam-se, invariavelmente, a novas demandas e condições. Logo, a mudança, em si mesma, nem de longe é uma surpresa. Por conseguinte, o sobressalto dos nossos dias não é a transformação, mas a velocidade com que ela acontece.
Um dia, meu pai trouxe para casa um LongPlay... (Permita-me um longo parêntese: isso aconteceu há vinte anos. Desde então, presenciei a morte do LP, o nascimento e a extinção do CD, a passagem meteórica dos pen drives e a apoteose das músicas arquivadas na nuvem. Em duas décadas, três tecnologias surgiram e três foram sepultadas. Quanto ao velho LP, logrou reinar absoluto por sessenta anos — as coisas estão de fato mudando rapidamente.)
Voltando ao caso... Um dia, meu pai trouxe para casa um LP com mensagens radiofónicas gravadas pelo grande comunicador cristão Roberto Rabello. Enquanto o disco girava na vitrola, eu imaginava o exato momento em que aquelas pregações eram irradiadas ao vivo pelas transmissoras — o ruído da agulha contra o vinil era igual aos das ondas de amplitude modulada que chegavam aos aparelhos antigos. O toca-discos era uma máquina do tempo.
A primeira mensagem do Lado A daquela bolacha contava algumas curiosidades. Com voz calibrada e leitura magistral, o pastor Rabello relembrou o tempo quando os primeiros trens começaram a circular pelos Estados Unidos, cruzando a grande nação de costa a costa. Diante da novidade, os jornalistas descreviam o assombro que era viajar a incríveis 60 quilómetros por hora. Nessa época, o responsável pelo escritório de patentes norte-americano concluiu que seu trabalho chegara ao fim, pois nada mais havia para ser inventado pelo homem. E com deliciosos outros exemplos, aquela pregação cravou em mim a certeza inabalável de que a Bíblia resistirá não só às mudanças, mas à velocidade com que elas acontecerem: “0 céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar” (Mt 24.35).
- Gunar Berg

I. VELOCIDADE E ANGÚSTIA
O tempo presente tem sido chamado de a era da informação. Apesar de adequado, a nomenclatura exige alguma reflexão. Se esta é a era da informação, seria correto supor que já houve uma era de desinformações? Alguém pode pensar que sim, mas não existiu. Nem mesmo durante a Idade Média, que entrou para o imaginário histórico como o período das trevas, houve desinteligência. A grande diferença entre o presente e os tempos idos é a velocidade com que as informações se multiplicam e se propagam. São duas, portanto, as principais características da era da informação: o conhecimento e a celeridade (esta é o nosso grande desafio).
O principal fruto da rapidez das informações não é a facilidade, mas a angústia. É tão forte o incômodo pelo imediatismo que, no Japão, é comum os adolescentes serem humilhados virtualmente pelos amigos, caso demorem em responder-lhes às mensagens instantâneas via celular — pois, se são instantâneas, por que a demora? Alguns simplesmente não resistem à pressão e suicidam-se.
A sanha pela presteza é tal que aquilo que, há bem poucos anos, era considerado o suprassumo das comunicações tornou-se praticamente inútil. O e-mail, como sabemos, nasceu com os dias contados. Sem cerimônia, ele desbancou as tradicionais cartas para, em seguida, ser pisoteado pelo Messenger e sepultado pelo WhatsApp; a pá de cal não demora a chegar. Estes e muitos outros recursos, embora úteis, têm-se mostrado nocivos. Apesar de não serem intrinsecamente maus, não deixam de causar-nos algum mal.
A angústia pela velocidade está roubando-nos a noção de tempo. Antes dos transportes mecânicos ultravelozes, preocupávamo-nos não com o tempo, mas com as distâncias. Os viajantes que seguiam a pé, ou nos lombos de alguma montaria, planejavam suas viagens em quilómetros, pois não tinham como tornar mais rápidos os passos dos animais ou os seus próprios passos. Mas tão logo os trens, os automóveis modernos e os aviões supersônicos começaram a dominar essas e outras rotas, as viagens passaram a ser planejadas não pela extensão, mas pelo tempo — a pergunta mudou de “Qual a distância?” para “Quanto tempo até chegar?”.
1. Ser sem estar presente. Depois de relativizar os quilómetros de uma jornada, a velocidade chegou finalmente à informação e à comunicação. A partir do tráfego de dados na rede mundial de computadores, até mesmo o sentido de estar foi mudado. Isso fica bastante fácil de compreender em nosso idioma, pois a língua portuguesa distingue o ser e o estar. As videoconferências permitem-nos ser presentes sem estar presentes. Converso quase todos os dias com meu filho, eu no Rio de Janeiro, e eles em Paulínia, separados por 600 quilómetros. Ele me vê e também a casa em que morou. As pessoas e os lugares mais distantes estão próximos de nós tanto quanto os dedos estão perto da tela de um smartphone. E como foi que isso mudou a noção de tempo a que nos habituamos?
Durante os tempos do Brasil colônia, uma viagem entre Portugal e o Novo Mundo durava, em média, 60 dias, dependendo dos ventos, das calmarias, das tempestades e do que mais pudesse haver. Mesmo durante a crise que ameaçou o reinado de Dom João VI (ele no Brasil e o problema lá na corte em Lisboa), as cartas iam e vinham em ritmo perturbadoramente lento para a urgência de um império como o português. Há alguns anos, o tempo de correio não era contado em meses, mas em dias — ainda assim, um exercício de paciência.
E então, de repente, você escreve um recadinho para alguém no outro lado do globo, e essa pessoa responde com um áudio, e tudo isso não demora mais que o tempo necessário de escrever ou falar. É claro que isso é extremamente vantajoso, porque ninguém gosta de esperar, e há coisas que não podem mesmo aguardar. O problema não é, entretanto, não precisar esperar, mas não aceitar que se deva esperar por algo. É por isso que a sociedade comprometeu a sua noção de tempo e de importância. Se os minutos escoam é porque não sabemos como administrar as informações inesgotáveis que passam por nós. Se eles se arrastam é porque não sabemos o que fazer sem os milhares de informações que deveriam voar diante de nós.
2. Uma geração de ineditismos. Não se deixe enganar pelas palavras. Dizer que nossa geração comete ineditismos é muito diferente de afirmar que somos uma geração de pioneiros. Pioneirismo tem a ver com nobreza e altruísmo; ineditismo, porém, significa apenas fazer alguma coisa, qualquer coisa, pela primeira vez (e isso não é necessariamente bom). Somos, por exemplo, a primeira geração da história a dormir menos do que o necessário, e também a primeira a comer mais do que o aceitável. A situação piora quando se descobre que somos os primeiros a destruir, por prazer, as coisas das quais precisamos para sobreviver. Esse comportamento tem nome: hipoteca do tempo futuro, e é provocado pela angústia causada pela velocidade da informação e a sua abundância.
O sociólogo polonês Zygmunt Bauman apontou a imprevidência de se hipotecar o futuro quando, ao abusarmos do presente, vivemos com excessos, acima dos limites ou das necessidades. Estamos fazendo saques antecipados do futuro, e não há como saber se conseguiremos pagar essa promissória. Mas como esse é o comportamento padrão das sociedades de consumo, ele é considerado normal. Mas não é! Aliás, aprendamos algo: normal não é sinônimo de comum. Normal é aquilo que segue a norma, a regra. Comum é apenas algo recorrente. Logo, é cada vez mais comum as pessoas sacarem antecipadamente o tempo que ainda não viveram, hipotecando o futuro. Embora comum, esse comportamento é anormal, pois não foi assim que Deus planejou a nossa vida.

II. PECADORES DIGITAIS
Até os anos 2000, ouvíamos dizer que, ao se desligar o televisor, uma janela se fechava ao pecado. Agora, carregamos pequeninas basculantes que fazemos questão de manter abertas. Nossos celulares são, potencialmente, frestas pessoais e intransferíveis às tentações e concupiscências. Isso mostra que, na era da informação, há uma superexposição ao pecado. O Senhor Jesus alertou-nos que, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos viria a esfriar-se.
1. Íntimo e sigiloso. As situações que favorecem o pecado são sempre íntimas e sigilosas. Foi assim que Davi perpetrou um adultério e um assassinato (2 Sm 11). O caso de Amnom e Tamar também é bastante emblemático (2 Sm 13). Alguém perguntará: Se ambos os exemplos são tão antigos, em que a era da informação é mais perigosa? Seu risco está em multiplicar as possibilidades dessa mistura letal: intimidade e sigilo.
Primeiro, com os computadores pessoais e, agora, de forma irresistível, com os tablets e celulares. Isso formou uma geração de usuários que vive seus dias na intimidade e no sigilo dos aparelhos eletrônicos. Escondidas atrás das telas, as pessoas sentem-se mais seguras em transgredir as leis e os mandamentos do Deus que tudo vê.
2. O pecado viral. Os mesmos recursos que, rapidamente, proporcionam conhecimentos e saberes também possibilitam pecados e apostasias em tempo real. Se uma informação, ou evento, populariza-se na internet, os especialistas dizem que é um viral, algo que se espalha tão rápido como um vírus, ou como o pecado. Comportamentos pecaminosos disseminados nas redes sociais são velozmente imitados (Gn 18.20).
3. O conhecimento de enciclopédia. Alguns alunos acostumaram-se tanto aos recursos de pesquisa pela internet que não se dão ao trabalho de produzir suas próprias pesquisas e chegar às suas próprias conclusões. Eles apenas reproduzem. Esse é o paradoxo da era do conhecimento: as informações estão disponíveis em tal quantidade, que poucos sabem o que fazer com elas. Logo, o conhecimento moderno não está contribuindo para o avanço moral e ético da sociedade. A única forma de desenvolvimento que temos experimentado é de quantidade, não de qualidade. Nunca o homem conheceu tanto sobre si e tão pouco sobre Deus! (Os 4.1). Por esse motivo, temos de concentrar-nos a falar de Cristo a uma geração que só conhece a rapidez e o instantâneo.

        III. COMO PREGAR O EVANGELHO À GERAÇÃO FAST
“Quando procuro um vídeo, não perco tempo com nada que tenha mais que três minutos!” “Quem não consegue se expressar com sete palavras não merece dizer setenta” “Uma ideia em cento e quarenta caracteres.” Andando pelos corredores dos shoppings, caminhando pelos calçadões do comércio, nas conversas com os alunos nos seminários ou com os irmãos da igreja, aqui e ali, sempre escuto frases assim. Sentenças que têm a ver com pressa, velocidade, expectativas imediatas. Elas são o retrato de como está o mundo: com cada vez menos tempo e cada vez mais coisas a fazer.
1. Falar de Cristo em poucos minutos. Por outro lado, ainda não aprendemos a falar de Cristo em alguns poucos minutos. Uma mensagem bem elaborada requer, no mínimo, cinquenta minutos. Mas quem, ao navegar pela internet, pararia para ouvir, durante meia hora, um sermão acerca da necessidade de uma vida de renúncias? A coisa está difícil até para os anunciantes de bens de consumo que, para conseguir a atenção da audiência da internet, sempre livre e independente, obrigam os navegantes a assistir, ao menos, cinco segundos de seus comerciais nos sites de vídeos e notícias — se essas propagandas não fossem obrigatórias, ninguém as veria! Se quem vende sonhos de consumo enfrenta tal dificuldade, como agirá aquele que ensina ser Jesus Cristo a única esperança para esta geração? O que devemos fazer?
2. O que dá certo na era da informação? Em plena era da informação, eu cultivo um antigo hábito: ouvir rádio. E foi escutando noticiários que ouvi um professor de tecnologia, cujo nome não consigo lembrar-me, dizer algo interessante. Segundo ele, o rádio, apesar de antigo, possui as características indispensáveis que fazem as coisas dar certo na era da informação: tem qualidade e é gratuito. Se você tem o costume de escutar rádio, sabe do que o professor estava falando. Se algo é bom e de graça, provavelmente dará certo na era da informação instantânea. Diante dessa reflexão, disse a mim mesmo: “Tá fácil para nós! O evangelho é bom e gratuito!”. Como diz a geração da internet: “É isso, só que não”.
A mensagem que pregamos é antiga como o mundo (Gn 3.15) porque é absolutamente tudo de que o mundo precisa. Só compete a nós fazermos a sua anunciação da forma correta. O problema, portanto, não é o que pregamos, mas como o pregamos e se, de fato, o estamos pregando.
Essa equação não está fechando, e a culpa é nossa. Infelizmente, não há gratuidade nem qualidade em boa parte dos púlpitos e na maioria dos programas evangélicos radiofônicos e televisivos. Uma rápida zapeada pelos canais de televisão mostra dezenas de apóstolos, um sem número de bispos e pastores pedindo dinheiro, solicitando ofertas, requerendo doações, clamando por ceifeiros, colaboradores e sócios que possam dar, dar e dar.
Numa emissora de rádio, descobri um pastor agastando-se numa pregação que não tinha fim. Durante quarenta minutos, aquele homem, nem por uma vez, disse algo sobre a santidade, ou o pecado, ou a necessidade de arrependimento. Ele já estava falando quando liguei o rádio do carro, e deve ter continuado, por algum tempo ainda, depois que estacionei o veículo. Ele falou somente nas bênçãos que viriam na forma de bônus para quem desse as maiores ofertas. Ao ouvi-lo, logo conclui: estamos pregando coisas ruins e cobrando muito caro por isso. Esse tipo de evangelho não tem como dar certo na era da informação. Aliás, foram pregações mercenárias e dinheirosas como essa que provocaram a reação de Martinho Lutero no século XVI.
Para pregar o evangelho na era da informação, carecemos apenas de uma coisa: pregar o evangelho! É tão simples. Alguns de nós é que insistem em fazer o errado!
Com o surgimento das redes sociais, muitos cristãos diziam que os seus perfis tinham a finalidade de falar de Jesus. Mas não foi exatamente isso o que aconteceu. A maioria dos crentes está transferindo para o virtual os seus maus hábitos reais. Não há evangelização, não há pregação e não há testemunhos. Só vejo brigas, contendas e testemunhos duvidosos. Logo, a estratégia para ser um arauto virtual não é montar um perfil de pregador, de cantor ou de qualquer outro tipo de celebridade gospel. O que importa é ser crente real com um perfil santo e também real e imediato.
Não basta postar vídeos com meditações e apelos evangelísticos, ou publicar frases de esperança. Nada disso terá qualquer efeito se a sua vida (dentro e fora das redes) for contrária à mensagem que você está tentando anunciar.
3. Somos evangelistas analógicos e ultrapassados? Na era da informação, é urgente responder a uma série de perguntas, visando dinamizar a prática evangelística da igreja. A pregação precisa de um novo formato? O evangelismo que praticamos é antiquado?
a) A Palavra épermanente. Mateus 24.35 afirma que a Palavra de Deus há de durar para sempre, ao passo que o mundo é efêmero e mui passageiro. Portanto, o evangelho de Cristo não muda. Logo, o seu conteúdo não precisa ser alterado para adequar-se à era da informação. O que era desde o princípio continua válido até hoje.
A mensagem da salvação possui características exclusivas que a fazem comunicável a qualquer grupo em qualquer situação. Ela é imutável e resiste às mais repentinas transformações sociais. É ilimitadamente transformadora, porque tem o poder de mudar a vida do mais vil pecador (Rm 1.16).
b) Não confunda recursos com modelo. Muitos evangelistas argumentam que o modelo bíblico de evangelização deve ser revisto, pois não está à altura dos desafios da era da informação. Isso não é verdade. Nosso modelo evangelizador é divinamente perfeito. Foi exemplificado pelo Senhor Jesus em seu ministério terreno. O que deve ser revisto são os recursos (2 Tm 4.2,3).
c) Um modelo de 2.000 anos. Nosso modelo de evangelismo é fundamentado no amor às almas. O evangelismo, segundo Cristo, atrai o pecador pelo amor. Não que a graça seja irresistível, mas não há como negar que ela é atrativa. O modelo de Cristo para ganhar almas é, portanto, orientado pelo amor ágape que só o Espírito Santo nos pode comunicar. Isso significa que não evangelizamos por causa de alguma preferência, mas apesar de qualquer coisa. Cristo vê no pecador não o que ele é, mas quem ele pode vir a ser.

IV. GANHANDO ALMAS NA ERA DA INFORMAÇÃO
Está se popularizando, em muitas igrejas, um novo tipo de trabalho: o Departamento de Mídias. Em linhas gerais, os cooperadores dessa nova seara operam os recursos de áudio e vídeo durante os cultos e, nos casos mais expoentes, transmitem-nos ao vivo pela internet. Faz parte dessa tarefa a criação e a manutenção de sites com recursos visuais impressionantes. Mas isso é tudo?
1. Uma rede para pescadores de homens. A atenção de quem navega pela internet é seletiva. Na rede mundial de computadores, ninguém perde tempo com o que não deseja. Então, por mais que as igrejas marquem presença nesse território, devemos levar em conta que, mais importante que um templo (ou um site), é um missionário que pode ir até onde a igreja não pode chegar.
Cristo comissionou pescadores de homens. Isso tem a ver com o caráter razoavelmente solitário da tarefa evangelística, cujos resultados são contados alma a alma. É assim que a internet funciona! Uma simples frase evangelística que, embora despretensiosa, é compartilhada centenas de vezes pelos membros da congregação, atingirá muitos mais pecadores do que o lindo site da igreja procurado apenas pelos que já são crentes.
2. Você é o que você publica. Jesus disse em Mateus 12.34 que “a boca fala do que está cheio o coração” (ARA). Logo, as nossas postagens cotidianas, nas redes sociais, têm muito mais poder testemunhal do que as frases intencionalmente evangelísticas, pois somos o que publicamos.
Admiradas, as pessoas indagavam acerca da fonte da autoridade das pregações de Jesus. Todas elas, porém, sabiam que Ele ensinava com autoridade, e não como os escribas e fariseus (Mc 1.22). O Mestre, antes de tudo, vivia estritamente por suas palavras. O seu discurso intencional concordava com as suas ações. Conclui-se que uma mensagem evangelística, perdida entre centenas de postagens inconvenientes, pecaminosas e mundanas, será tão destrutiva quanto o pior dos vírus de computador.
3. Crie uma FanPage. A FanPage é diferente do perfil. Este serve para pessoas; aquela, para empresas e instituições. A sua igreja, seu grupo de jovens e adolescentes, ou qualquer outro departamento de sua congregação, pode ter uma FanPage. É absolutamente gratuito e muito fácil de usar. Na verdade, o FaceBook encarrega-se de orientar o usuário nas postagens. Além disso, os relatório da FanPage (todos fornecidos automaticamente pelo FaceBook) permitem-lhe monitorar a repercussão das postagens.
4. Desenvolva um canal no YouTube. Como já dissemos, na internet apenas as iniciativas excelentes e gratuitas sobrevivem. Por isso mesmo, é possível usar alguns serviços excepcionais, na rede, sem gastar nenhum centavo. Haja vista os canais do YouTube. Um canal é como um álbum de figurinhas, só que elas têm movimento e som. Você pode postar vídeos curtos (para fins evangelísticos, eles não podem ter duração superior a um minuto) ou palestras e pregações. Mas é importante que você tenha algo em mente: ninguém acessa ou assina um canal para fazer de você uma celebridade digital. As pessoas só assistem àquilo que as interessa; na internet, ninguém é obrigado a nada. Então, seja criativo e relevante; busque a sabedoria do alto.
5. Crie uma lista de transmissão no WhatsApp. O Brasil tem mais aparelhos telefônicos ativos que pessoas! E se você possui um celular, provavelmente tem WhatsApp. Esse aplicativo caiu no gosto dos brasileiros de tal maneira, que o nosso país é a maior audiência dele fora dos Estados Unidos. Mas com o WhatsApp veio a perturbadora mania dos grupos. É grupo de mocidade, das irmãs, da classe da Escola Dominical, da faculdade e do pessoal do trabalho. E o que era para ser um fórum para assuntos ligados aos interesses comuns tornou-se um meio de divulgação de piadas, vídeos bizarros e imagens satíricas. Para fins evangelísticos, portanto, um grupo é uma coisa inútil. O que fazer?
A solução pode estar nas listas de transmissão. Com essa funcionalidade, você pode enviar uma mensagem redigida em linguagem direta não para um, mas para todos os seus contatos. Ela será visualizada pelos destinatários como sendo um recado pessoal seu para eles, para cada um pessoalmente, mas sem o trabalho de redigir um texto para cada contato. Então, faça uma lista de transmissão apenas para os seus contatos não crentes. Veja como é fácil: Abra o aplicativo WhatsApp; vá até Conversas > Menu > Nova Transmissão; escolha os nomes dos destinatários; e, finalmente, confirme e toque em Criar.

Conclusão
O mundo jamais viveu um avanço científico, industrial ou acadêmico como este. Sem exageros, o conhecimento produzido no último século é superior a tudo o que foi escrito, descoberto ou criado anteriormente. Mas isso não deve surpreender-nos. Primeiro, por que está previsto nas Escrituras (Dn 12.4) e, segundo, por que o saber não é essencialmente danoso (Pv 2.6). Ao contrário, beneficiamo-nos tanto da medicina quanto da tecnologia atual de telecomunicações. Entretanto, a era da informação, apesar das óbvias vantagens que oferece, é um desafio evangelístico, pois não houve outro momento com mais distrações ou concorrências à pregação do evangelho do que o atual.
A maioria de nós não é nascida no ambiente virtual da era da informação. Ao contrário, tivemos de aprender a viver neste período. Mas as necessidades dos seres humanos continuam as mesmas: o homem ainda precisa de Deus e da salvação em Jesus Cristo. Você pode não entender todos os recursos da modernidade, mas conhece o modelo ideal para ganhar almas. Então, fale de Cristo.

Autor: Claudionor de Andrade





Lição 12 - Profecias de Salvação e Esperança (Jovens)



No capítulo 40, começam as profecias que se referem ao exílio e pós--exílio. Isaías tem objetivos muito claros nessa segunda parte de suas profecias. Ele anuncia ao povo que o tempo de sofrimento estaria chegando ao fim, que o castigo divino estava para terminar e que bênçãos e salvação estavam a caminho. Elas enfatizam o livramento (40-48), a redenção (49-57) e a glória (58-66) do povo de Deus. Logo, dizem respeito à salvação e à esperança, servindo de contrapeso às profecias iniciais que previam catástrofes e miséria devido à desobediência do povo, mostrando também que a misericórdia e o amor de Deus são infinitamente maiores que sua correção e juízo.
As profecias se referem a dois períodos históricos. O primeiro é o do cativeiro babilónico que logo aconteceria e o povo precisaria ter esperança em Deus para ver Jerusalém e o templo completamente destruídos (veja Lamentações de Jeremias) e sobreviver em Babilónia, um lugar de sofrimentos, saudades (SI 137) e perdas; alguns deles serviriam no palácio real, como Daniel e seus amigos, porém muitos seriam escravos maltratados e fariam trabalhos desprezíveis. Aliás, os maltratados eram maioria. Por isso, o profeta anima-os com suas palavras preparando-lhes para este tempo; o segundo é o período em que eles voltariam do cativeiro e, dadas as condições precárias da longa viagem, em boa parte pelo deserto, bem como a própria situação de Jerusalém devastada, a qual encontrariam quando chegassem, era preciso palavras de encorajamento para que o remanescente não desfalecesse. Todas essas profecias de Isaías, no entanto, têm um horizonte muito maior, que é a salvação que Deus daria ao povo através de Cristo; por isso, o profeta é chamado de anunciador de Boas-Novas, pois ele prevê que Deus traria grande salvação ao seu povo, para além do tempo de cativeiro e retomo.

I - O PROFETA EVANGELISTA
A destruição estava em toda parte (Lm 2.2), o templo foi profanado, e todos foram humilhados (Lm 1.10; 2.15; 3.45-46), a autoestima foi abalada (Lm 2.1), a esperança esvaiu-se por completo (Lm 5.2), o povo foi levado escravo (Lm 1.3; 5.5), instalou-se uma crise de identidade (Lm 1.6; 2.9; 5.6) e a fome devorava todos (Lm 4.4-5). É nesse contexto futuro de destruição que o profeta constrói uma das passagens mais lindas de Isaías. Primeiramente que Deus agiria trazendo libertação ao povo, mas também traria a certeza de que o Messias viria como ungido divino e restauraria todas as coisas.
É importante notar uma inferência à trindade no texto do capítulo 61, pois o profeta se refere ao “Espírito”, ao “Senhor Jeová” e a “mim” (Is 61.1), demonstrando que toda a trindade e poder divinos estavam agindo a favor de Israel e da humanidade perdida, no sentido de lhes trazer salvação e redenção completas através das Boas-Novas do evangelho. Teologias do método histórico-crítico argumentam que, quando o profeta se refere a “mim”, está se referindo a si mesmo ou ao povo de Israel, porém essa tese é desfeita quando Jesus toma o livro de Isaías na sinagoga de Nazaré e diz: “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lc 4.21)
1. A situação do povo no cativeiro
Aconteceram três deportações para a Babilónia; a primeira em 605 a.C., sendo um dos cativos o profeta Daniel; a segunda em 597 a.C., quando foram levados todos os nobres e ricos da cidade, em tomo de 10 mil pessoas; e a terceira, como um golpe final sobre Jerusalém, aconteceu no ano 586 a.C.. Alguns haviam morrido de forme e nas guerras, e somente os mais pobres dentre o povo ficaram na cidade. Nessa conquista, a cidade foi devastada, o templo queimado e as riquezas saqueadas. Somente no ano de 539 a.C. os judeus começaram a voltar para Jerusalém e a reconstruí-la juntamente com o templo.
O povo de Deus, vivendo fora de sua própria terra, estaria numa situação muito lastimável. Eram escravos, sem templo, sem sacerdote, sem rei, sem orientação clara, em total desespero. Isaías nos dá uma ideia de como seria: “Essas duas coisas te aconteceram; quem terá compaixão de ti? A assolação, e o quebrantamento, e a fome, e a espada! Como te consolarei? Já os teus filhos desmaiaram, jazem nas entradas de todos os caminhos, como o antílope na rede; cheios estão do furor do Senhor e da repreensão do teu Deus” (Is 51.19-20). Eles seriam tão humilhados que o profeta lhes chama de “bichinho [outras versões escrevem vermezinho] de Jacó, povozinho de Israel” (Is 41.14). Mas ao mesmo tempo, ele lhes dá esperança de que Deus os ajudaria, seria seu Redentor. A escravidão a qual o povo foi submetido é descrita por Isaías como humilhante e exaustiva a ponto de aniquilar as forças (Is 44.12; 49.4). Eles estavam indefesos diante do poder do opressor.
Além disso, quando o povo de Jerusalém chegasse à Babilónia, haveria um contraste inquietante: a falsa grandeza dos deuses babilónios, que deram a vitória aos opressores, e o aparente fracasso do Deus israelita, que não livrou seu povo. Diante disso, eles precisavam ser animados e encorajados para continuarem crendo e esperando que Deus lhes traria o livramento, quando o castigo pela desobediência passasse. O profeta deveria dar uma mensagem de esperança para que o povo não caísse na armadilha de achar que havia uma disputa entre os deuses babilónios e o Deus de Israel. Embora temporariamente os babilónios tenham sido vencedores, essa realidade não duraria para sempre. Sendo assim, o profeta estava enviando Boas-Novas de salvação para num momento em que a confiança em Deus ficaria muito tênue, diante da realidade do opressor.
2. A situação do povo que ficou em Jerusalém
Nas primeiras deportações, o rei da Babilónia levou as pessoas mais nobres, ricas e as pertencentes à corte real (2 Rs 24.12-17; Jr 52.28-32). Na última deportação, foram levadas pessoas mais simples, como os funcionários da corte, sacerdotes, levitas, ajudantes, serventes, artesãos, alguns agricultores e vinhateiros (2 Rs 25.9-12). Ficaram somente os extremamente pobres na periferia de Jerusalém. O profeta Jeremias descreve a situação dos que ficaram da seguinte maneira: “A nossa herdade passou a estranhos, e as nossas casas, a forasteiros. Órfãos somos sem pai, nossas mães são como viúvas. [...] Os nossos perseguidores estão sobre os nossos pescoços; estamos cansados e não temos descanso. [...] Servos dominam sobre nós; ninguém há que nos arranque da sua mão. [...] Nossa pele se enegreceu como um fomo, por causa do ardor da fome. Forçaram [estupraram] as mulheres em Sião; as virgens, nas cidades de Judá” (Lm 5.2-3, 5, 8, 10-11). Chegou-se até a afirmar que eram mais felizes os que morreram pela espada do que pela fome (Lm 4.9).
3. O significado de Boas-Novas
Diante desse quadro desolador, o profeta anuncia as Boas-Novas de salvação através do Servo Sofredor, que tomaria o lugar miserável do povo. De forma contextualizada, é justamente nesse estado que se encontram todos aqueles que estão afastados de Deus, cuja situação é caótica e somente a graça de Deus anunciada nas Boas-Novas é que pode trazer libertação e redenção.
A expressão Boas-Novas vem da palavra hebraica basar, que no grego é euangelizo, de onde provém a palavra “evangelho”. Sendo assim, quando anunciamos o evangelho, estamos cooperando com Deus e dando prosseguimento ao que o profeta iniciou, proclamando que o Deus libertador e perdoador está ao alcance de todos. É justamente a proclamação do evangelho que permite o acesso ao evangelho; por isso, o imperativo ide (Mt 22.9; 28.19), que possibilita aos ouvintes libertação, de acordo com o que Paulo escreveu: “Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14).
4. O anunciador de Boas-Novas
Por quatro vezes em seu livro, o profeta faz menção ao anúncio de Boas-Novas (40.9; 41.27; 52.7; 61.1). O que aconteceria ao povo no cativeiro não poderia ser comparável com a salvação que viria, e é por isso que ele anuncia Boas-Novas. Portanto, quando o profeta pronuncia Boas-Novas, está dizendo que, apesar das circunstâncias difíceis do cativeiro, Deus estaria agindo. Para provar isso, ele evoca na sua profecia, diversas vezes, a obra da criação (e.g., Is 40.12-17, 21-31 dentre outros), como se, no momento do exílio, estivesse tudo “sem forma e vazio”, mas Deus estaria se movendo sobre a face das águas (Gn 1.2) e, em breve, traria livramento para seu povo.
Da mesma forma, os cristãos no mundo todo são chamados a proclamarem o evangelho de Cristo aos que estão no cativeiro do pecado, do desprezo e da opressão, de tal forma que todos alcancem aquilo para o qual Cristo veio: “[...] restaurar os contritos de coração, a proclamar liberdade aos cativos e a abertura de prisão aos presos” (Is 61.1). Isso porque, como afirma René Padilha, “a comunicação oral do evangelho realmente é uma tarefa que os cristãos não podem esquecer.” Somos convocados por Deus para tal tarefa ao recebermos o seu Espírito Santo: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). Assim sendo, porque Cristo foi ungido pelo Espírito Santo, todos nós, seus discípulos, também o somos com o objetivo de tomar conhecidas as Boas-Novas do evangelho. O profeta deixa claro que, para fazer a obra de Deus dessa forma extraordinária, é necessário que, antes de tudo, haja unção do Espírito Santo (At 1.8). Depois é que se segue o enviar (ide), o proclamar (pregar), o consolar e o ordenar (serviços) (Is 61.1).

II - AS BOAS-NOVAS DO EVANGELHO
Apesar de Isaías prever muito juízo divino como consequência da desobediência à Palavra de Deus, de descrever catástrofes bélicas e de aprisionamento do povo de Deus, o profeta faz irromper, com todo ímpeto, a salvação de Deus em seu livro. É algo extraordinário e belo observar a inspiração profética de Deus vindo em socorro do povo, a começar pelo nome de Isaías, que significa “o Senhor salva”. O verbo hebraico ysha ’, de cuja raiz vem o nome de Isaías, significa ajudar, salvar, resgatar, auxiliar quem está em dificuldades, e é justamente isso que Deus faz com Israel. Por isso, vários textos de Isaías mostram o Senhor Deus como o salvador.
Outra palavra utilizada por Isaías que denota Boas-Novas é “Redentor”, do hebraico go’el, que é o que redime dívidas impagáveis, assumindo as penalidades do que deveria ser castigado. Assim, Deus se coloca no lugar do pecador (Israel e gentios) impenitente e lhe provê o perdão e o livramento do castigo. Isaías ainda usa a palavra hebraica padah, que também significa “remir” ou “resgatar”, ou seja, é Deus pagando o preço pela libertação. Essas são as grandes Boas-Novas que Isaías anuncia, sem nem mesmo compreendê-las plenamente, pois se cumpririam por completo apenas em Cristo. Elas se resumem neste texto do profeta: “Por um pequeno momento, te deixei, mas com grande misericórdia te recolherei; em grande ira, escondi a face de ti por um momento; mas com benignidade eterna me compadecerei de ti, diz o Senhor, o teu Redentor” (Is 54.7-8).
1. O evangelho é uma pessoa
O Evangelho é a própria pessoa de Cristo. Nele se concentra toda a boa-nova de Deus para o resgate do ser humano. Foi Ele que, com sua morte e ressurreição, tomou a mensagem do Evangelho inconfundível. Quando Jesus morreu na cruz, nEle concentrou-se todo o mal e toda a culpa humana, como um ralo gigantesco que absorveu tudo aquilo que é contrário à plenitude da natureza humana para a qual Deus nos criou. Cristo nos libertou da maldição da Lei, da condenação do pecado e da separação de Deus, permitindo-nos estar unidos em comunhão com Ele, a fonte da vida. Deus agora não olha mais para nosso passado como parâmetro para nos aceitar e encaminhar nosso destino; porém, através da lente do evangelho, Ele nos vê como sua delícia (“Hefzibá” conforme Is 62.4) e somos procurados por Ele (Is 62.12) para uma vida de comunhão e intimidade.
Marcos é o evangelista que nomeia o Evangelho como sendo o próprio Cristo (Mc 1.1), bem como anuncia que o tempo do Evangelho chegou com Cristo (Mc 1.15) e Mateus anuncia que as várias profecias de Isaías se cumpriram em Cristo (Mt 1.22-23; 2.15,23; 4.12-17; 12.17-21; 21.4-5). Ele abriria os olhos dos cegos e tiraria de prisões aqueles que estavam em trevas. Por isso, Jesus é chamado em Isaías de luz dos gentios (Is 9.2; 42.6-7), que os tirariam das trevas e lhes iluminariam o acesso a Deus.
2. O evangelho é uma mensagem
O evangelho é o poder de Deus operando para a salvação de todo aquele que crê (Rm 1.16). A aceitação do evangelho em atitude de fé é a garantia da libertação de pecados, medos e culpas, e também é a porta de entrada para a vida de liberdade que Deus preparou para os seus filhos. “O Messias continuará a usar a pregação do evangelho, para levar embora as cinzas da tristeza que os nossos obscuros pensamentos amontoaram sobre a nossa cabeça, e a derramar sobre nós o óleo de gozo.”
O profeta salienta que Deus, contrastando com os ídolos, é aquEle que trabalha para os que nEle esperam (Is 64.4). Na história da humanidade, nunca se viu ou se verá um Deus assim, simplesmente porque não existe outro Deus. O trabalhar de Deus em prol da humanidade perdida foi tão intenso que não poupou nem mesmo seu único filho. Dessa forma, seu trabalhar estendeu-se para além de qualquer expectativa humana, a ponto de entregar-se a si mesmo em Cristo, provando seu grande amor incondicional e seu cuidado intensivo para com a situação deplorável da humanidade, trazendo-lhes salvação, apesar de ninguém ser merecedor de tão grande salvação, pois todos pecamos, “somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia” (Is 64.5-6).
Imundícia, aqui, está relacionada à peça de vestuário suja de sangue de menstruação, que contaminava cerimonialmente a mulher e também o homem que nela tocasse no Antigo Testamento. Mesmo quando achamos que podemos estar agindo religiosamente da melhor maneira, isso pode ser totalmente sem valor, pois quem nos justifica é somente Cristo, ou seja, o evangelho é a garantia de que todas as nossas impurezas, imperfeições, pecados e misérias são lavados pelo sangue do Cordeiro e, assim, somos aceitáveis e queridos por Deus. O apóstolo Paulo faz coro ao profeta quando afirma: “[...] As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus” (1 Co 2.9-10).
3. O evangelho é um estilo de vida
O estilo de vida proposto pelo evangelho não tem muito a ver com a cultura gospel impregnada em nosso país. E, na verdade, um estilo de vida que imita Jesus em todas as coisas, numa atitude radicalmente contrária aos valores observados ou impostos até mesmo pela religiosidade. Seguir Jesus é dizer sim a atitudes de amor e de esperança para um mundo sofredor.
Mas seguir a Jesus também é ansiar pela presença e intervenção de Deus no mundo para que haja salvação. Por isso, o profeta faz uma série de anseios, lamentos e apelos proféticos apaixonados, que também devem ser nosso alvo, divididos da seguinte forma:
A1. Anseio: Pelo amor de Deus (63.15-16);
B1. Lamento: Nosso coração endurecido (63.17-19);
A2. Anseio: Desejo intenso pela presença e ação de Deus (64.1-5a);
B2. Lamento: Nossos pecados permanentes (64.5b-7);
C. Anseio: Desejo pelo toque perdoador de Deus (64.8-9);
Apelo: Que o Deus ilimitado intervenha (64.10-12).
Assim, viver o evangelho é ansiar profundamente (SI 42; 84) pela presença e manifestação de Deus como única solução purificadora e regeneradora do ser humano. E bem verdade que o pecado e o sofrimento nos acompanharão por toda a vida terrena; mas em Cristo, sempre de novo e infinitamente, experimentaremos o poder libertador, curador, restaurador e transformador do evangelho.
Algumas pessoas são carregadas de vícios a serem abandonados, culpas do passado, precisam de restauração de suas ruínas emocionais de sofrimento e dor, pois o pecado e o sofrimento criam correntes de prisão da alma humana. Muitos não encontram saída para tanta desolação e tristeza. Os mecanismos humanos não dão conta de reconstruir o que se perdeu, ou entrou em ruínas. É nesse momento de caos, assim como com Israel, que o profeta levanta a voz e diz: “E edificarão os lugares antigamente assolados, e restaurarão os de antes destruídos, e renovarão as cidades assoladas, destruídas de geração em geração” (Is 61.4). Tudo isso é possível porque o Espírito do Senhor, assim como no Messias, é sobre nós. Logo, a restauração da situação de miséria humana é um milagre divino que ecoa e age porque Cristo toma isso possível. Foi por isso que Paulo escreveu: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego” (Rm 1.16). Portanto, os que vivem no evangelho vivem um novo estilo de vida não mais condicionado ou aprisionado ao pecado e ao sofrimento humano, mas livre, liberto e pleno de vida, porque Cristo permite a todos que o aceitam e vivem a mensagem do evangelho que experimentem o seu poder transformador.

III - SALVAÇÃO E ESPERANÇA
1. Deus ampara seu povo no cativeiro
O profeta, descrevendo a situação do povo no cativeiro e prevendo salvação, afirma que o livramento do Senhor virá em meio ao deserto e que este se tomará em caminho reto. Passarão por vales e montanhas, porém estes se tomarão planos. Aquilo que no momento está torto será endireitado, e o que é áspero se tomará liso (Is 40.3-4). Ele faz a promessa de que aqueles que, em meio à tribulação, ficarem cansados e afadigados, se esperarem no Senhor, suas forças seriam renovadas para uma caminhada sem fadiga e uma corrida sem se cansar (Is 40.29-31). No exílio, o povo se sentiria muito longe de Deus, com muita sede dEle, mas Ele os ouviria e lhes saciaria; Deus lhes promete que lugares desertos se transformariam em mananciais de águas pelo seu poder miraculoso (Is 41.17-18). Isso significa que Deus proverá para o seu povo as coisas essenciais em muita abundância.
O profeta descreve o amor de Deus semelhante ao amor materno (Is 49.15), não tendo outra comparação que chegue mais perto desse amor, pois é a expressão de amor humano mais gratuito que existe. Ainda assim, o amor materno pode falhar, mas o de Deus nunca falha. Assim, Deus é descrito como amigo e interessado em livrar, perdoar, libertar, curar e cuidar. Nesse sentido, o profeta Isaías descreve o amor de Deus sendo: consolador (40.1; 51.12), que dá vigor ao cansado (40.29; 41.10), o compassivo (49.13; 52.9), o pastor (40.11), o perdoador (55.7) e um Deus próximo (45.3; 49.1,16). Dessa forma, o profeta desfaz uma imagem de um Deus vingativo e irado, muito comum no Antigo Testamento, e mostra quem Ele realmente é. Uma figura próxima do ser materno, a fim de expressar o amor de Deus ao povo, é usada quando o profeta o chama de pastor (Is 40.11; 56.8; 57.18; 58.11). Ele assim o faz para mostrar que Deus cuida, guia, toma em seus braços de amor e lhes traz descanso.
2. Deus livra o seu povo do cativeiro
A divindade cultuada na Babilónia era Marduk que, aparentemente, enquanto o povo estava debaixo da escravidão, levava vantagem. Marduk, na mitologia babilónica, era o deus que havia vencido o monstro marinho e criado o mundo; logo, era o mais poderoso. Por esse motivo, a profecia salienta a grandeza do Todo-poderoso Deus de Israel, atribuindo a vitória sobre o monstro a Jeová (Is 45.5; 51.9) e salientando várias vezes que Ele é o criador de todas as coisas (Is 43.7,15; 45.12), o único Salvador (Is 44.8; 45.5,6,18,21; 46.9), o Redentor e o Santo de Israel (Is 41.14; 44.22; 54.5,8).
Certamente, a dúvida pairava na cabeça de muitos israelitas se, de fato, essa divindade não seria mais poderosa que o Deus Jeová. Entretanto, quem tem condições de entender a história - e o profeta é um deles -prevê que, ao final das contas, existe apenas um Deus que é verdadeiro, sendo os demais mui medíocres (Is 46.1), pelo simples fato de terem sido criados pelas mãos dos homens, o que nem é parâmetro de comparação com o Deus de Israel. Pouco a pouco, o povo percebe que são seus próprios pecados e desobediência que os trouxeram ao cativeiro (Is 43.27-28) e que o opressor nada mais foi que um instrumento do único Deus verdadeiro para corrigir e dar vida novamente a seu povo.
Na profecia de Isaías, Deus chama Ciro, rei da Pérsia, de “ungido” (Is 45.1), sendo ele o instrumento para consolar e libertar seu povo do cativeiro no ano 539 a.C., apontando, desse modo, para o próprio Messias que, então sim, traria a libertação completa (Jo 8.36). Para reacender a fé do povo quando estivesse no cativeiro, o profeta lembra a eles o triunfo do êxodo, quando Deus interviu milagrosamente para libertar o povo (Is 40.3-4; 43.19-21). Deus sabia que seu povo ficaria confuso e com dúvidas no cativeiro. Por isso, o profeta antecipa-se aos fatos com palavras de consolo e esperança (Is 49.8-10).
3. Um derramar abundante do seu Espírito
Em todo o Antigo Testamento, o Espírito Santo é mostrado como o ser divino bastante ativo e colocando tudo e todos em movimento, criando (Gn 1.2; SI 33.6), organizando a caminhada do povo (Jz 3.10), inspirando e ungindo reis, profetas e sacerdotes (1 Sm 19.21; Mq 3.8; Nm 3.3), e dando sabedoria (Ex 35.31); mas é em Isaías que o Espírito Santo tem uma abrangência muito maior. Ele repousaria sobre o Messias (11.2); seria derramado (32.15); faria cumprir a Palavra do Senhor (34.16); está em todos os lugares (38.16); é autónomo (40.13); seria o protetor (59.19); daria restauração e liberdade (61.1); faria um concerto eterno (61.8) e daria descanso (63.14). O profeta prevê que Ele derramaria água sobre todos os que tiverem sede de Deus e transformaria em rios onde houvesse uma terra seca. “E a terra seca se transformará em tanques, e a terra sedenta, em mananciais de águas; e nas habitações em que jaziam os chacais haverá erva com canas e juncos” (Is 35.7). E ainda: “Abrirei rios em lugares altos e fontes, no meio dos vales; tornarei o deserto em tanques de águas e a terra seca, em mananciais” (Is 41.18).
Esse mesmo Espírito agiu sobre a vida de Jesus (Mc 1.10; Lc 4.14,18) para curar, libertar, transformar, operar milagres, consolar, ressuscitar mortos e realizar as obras de Deus; e esse mesmo Espírito opera na vida da Igreja para fazer obras maiores ainda (Jo 14.12); e é o Espírito Santo quem dá acesso ao Reino de Deus: “Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” (Jo 3.5). Portanto, o Espírito Santo age hoje de maneira muito mais intensa que nos tempos de Isaías, pois foi ele quem previu um derramar abundante onde houvesse sequidão (Is 35.7).
Além de o Espírito Santo colocar todas as coisas em movimento, atuar sobre reis e profetas e ungir a Jesus de Nazaré, seu agir se dá no meio do seu povo e na vida de cada crente em particular, levando ao arrependimento. Quando alguém olha para dentro de si e percebe quantas coisas existem que não agradam a Deus e se esforça para abandoná-las, isso pode levar a um colapso mental e espiritual, pois ninguém consegue agradar a Deus plenamente. Porém, ao reconhecer as falhas e procurar abandoná-las - o que o profeta chama de arrependimento ou estar de coração contrito (Is 57.15) -, Deus imediatamente se aproxima num acolhimento de amor, provendo sua presença curadora e restauradora. Caso contrário, ninguém suportaria a dor de suas próprias debilidades humanas. A isso o evangelho chama de graça divina. Aqueles cujo coração é contrito, com estes o “Deus conosco” habita (Is 7.14; Mt 1.23) e produz vivificação, ou seja, o que era sinal de morte passa a ser a essência da vida.

Autor: Claiton Ivan Pommerening




Lição 11: A Evangelização das Pessoas com Deficiência (Adulto)


Introdução
Isaías descreve uma época em que “se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará” (Is 35.5,6, ARA). O profeta, ao realçar o amor inclusivo de Deus, mostra que nem mesmo as pessoas com deficiência mental terão dificuldades em atinar com o caminho divino: “E ali haverá bom caminho, caminho que se chamará o Caminho Santo; o imundo não passará por ele, pois será somente para o seu povo; quem quer que por ele caminhe não errará, nem mesmo o louco” (Is 35.8, ARA).
Ainda que a visão do profeta seja sobre o Milénio, a cura e o refrigério físico, mental e espiritual podem ser experimentados, hoje, por todo aquele que vem a Cristo. A profecia revela o interesse de Deus por todas as pessoas, inclusive pelas que trazem deficiências e limitações.
O amor de Deus é inclusivo. Ele não admite que ninguém fique de fora, mas “quer que todos os homens se salvem e venham ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2.4). A evangelização que não inclui as pessoas com deficiência é incompleta e não expressa plenamente o amor de Deus.
Neste capítulo, fui buscar a assessoria de minha filha, a professora Karen Bandeira, que estudou com carinho a educação inclusiva, a fim de adaptá-la à evangelização das pessoas com deficiência.

I. PESSOAS COM DEFICIÊNCIAS TAMBÉM CARECEM DA SALVAÇÃO
A inclusão de pessoas com deficiência não deve ser vista apenas como política pública, mas como a maior expressão do amor de Deus. Porque o Pai Celeste, amando-nos como nos ama, enviou o seu Filho ao mundo, para que todos viéssemos experimentar a salvação em sua plenitude. Iniciaremos este tópico, buscando uma definição que descreva corretamente a pessoa com deficiência.
1. Definição. Pessoa com deficiência é a que se acha privada quer de seus sentidos, quer de seus movimentos, ou do pleno uso de suas faculdades mentais. Nessa definição acham-se os cegos, mudos, surdos, paraplégicos e tetraplégicos, os autistas e os que têm a síndrome de Down. Deveríamos incluir, também, os que se encontram acometidos pela doença de Alzheimer. Aliás, com o envelhecimento da população, cresce o número de idosos que, mais cedo ou mais tarde, poderão apresentar algum tipo de deficiência. Por isso, estejamos atentos aos anciãos, entre os quais faremos preciosas colheitas para a Seara do Mestre.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, “deficiência é o termo usado para definir a ausência ou a disfunção de uma estrutura psíquica, fisiológica ou anatômica”.
2. Nem inaptos nem desculpáveis. No que tange à salvação das pessoas com deficiências, ou limitações, há pelo menos dois posicionamentos errados. O primeiro é o que não as contempla como alvo do evangelho e aptas a servirem a Deus. Simplesmente não se ocupa delas e não as incluem nos projetos evangelísticos. O segundo é o que as vê como desculpáveis e já santificadas pelo sofrimento.
No passado, certos enfermos suscitavam compaixão e chegavam a ser chamados de “santinhos”. E, para reverenciá-los, algumas pessoas tocavam-nos como se deles pudessem receber alguma virtude. Enganosamente, muitos veem como não condenáveis os indivíduos com deficiências, ou limitações, como se a entrada no céu lhes fosse franqueada em compensação das dificuldades enfrentadas na vida terrena.
Mas a Palavra de Deus é clara: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). Com ou sem deficiências, todos nascemos pecadores e estamos “debaixo do pecado, como está escrito: Não há um justo, nem um sequer. Não há ninguém que entenda; não há ninguém que busque a Deus. Todos se extraviaram e juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só” (Rm 3.1012). Infelizmente, achar que os indivíduos mental ou fisicamente limitados não carregam, em si, a natureza de Adão é mais cômodo, porque libera a igreja da tarefa de evangelizá-los e integrá-los espiritual e socialmente ao corpo de Cristo.
Eis, portanto, um desafio que enfrentaremos com amor e prontidão. Sei que a tarefa não é fácil, pois a evangelização das pessoas com deficiência requer esforços concentrados e específicos. No entanto, temos de falar de Cristo aos que não ouvem, mostrar as belezas da vida cristã aos que não veem, apontar o caminho da salvação aos que não conseguem andar e discorrer sobre a razão da nossa fé aos que não logram pensar com clareza. Esta é a nossa missão: tornar o evangelho acessível a todos, inclusive aos que trazem alguma deficiência. Ajamos, pois, como seus olhos, ouvidos, boca e pernas, pois assim agiu o Senhor Jesus em seu ministério terreno.
3. Carentes e ao alcance da graça. A verdade é que todos precisam ser alcançados pelas Boas-Novas: os que enxergam bem, os que veem pouco e os que nada veem; os que escutam e falam, os que não ouvem nem falam; os que aprendem rápido e os que precisam de mais tempo para aprender; os que caminham com as próprias pernas e os que usam cadeiras de rodas, próteses ou muletas; os autistas, aqueles com síndrome de Down, com dislexia, com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, com paralisia cerebral, epilepsia... Todos devem ser conscientizados de sua situação perante Deus, por causa do pecado, e saber que podem ser “justificados gratuitamente pela sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus” (Rm 3.24).
Nesse sentido, cabe-nos uma reflexão. Se o governo, com suas políticas ineficazes e, às vezes, fundamentadas em ideologias contrárias ao cristianismo, busca integrar as pessoas com deficiência à sociedade, por que deixaríamos nós, a Igreja de Cristo, de cumprir nossa obrigação? Além do mais, o Senhor Jesus adverte-nos seriamente a respeito de nossa inércia evangelística: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5.20, ARA). O que isso significa? Antes de tudo, que devemos fazer um trabalho de comprovada excelência; um trabalho que venha a exceder, em muito, ao que o Estado diz realizar.

II. A TAREFA DA IGREJA
A tarefa de trazer os deficientes a Jesus cabe a mim e a você. Por meio de uma didática apropriada, podemos incluir os deficientes no Plano da Salvação, ensinando-lhes a Palavra de Deus. Somente assim, poderão eles vir a superar todos os seus limites espirituais, emocionais e sociais.
1. A singularidade e a preciosidade de cada indivíduo. A triste verdade é que as igrejas dão-se por satisfeitas em poder atender a maioria das pessoas, quando Jesus quer que todas sejam incluídas. Ele não veio para a maioria, mas para “toda a criatura”, para “todo aquele que nele crê” e para “todo aquele que invocar o nome do Senhor” (Mc 16.15; Jo 3.16; Rm 10.13). Mas “como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14). Ainda que em nossa comunidade haja apenas uma única pessoa que demande atenção especial, é bíblico que façamos o necessário para acolhê-la e discipulá-la.
Nas parábolas de Lucas 15, ao mostrar a preocupação do pastor por uma única ovelha desgarrada, o desvelo da mulher por uma única moeda perdida e a solicitude do pai por um filho distante, o Senhor destacou a unicidade e a preciosidade de cada indivíduo ao coração de Deus. A Igreja deve ter essa mesma visão e não se contentar enquanto lá fora houver uma alma perdida. E se essa alma for alguém com uma deficiência que demande investimento humano e financeiro, a Igreja não deverá encolher-se no pensamento mesquinho de que só valeria a pena se fosse um grupo inteiro.
Alguém, ao discorrer sobre a graça divina, afirmou que, se todas as pessoas do mundo fossem justas, com exceção de apenas uma, Jesus Cristo ainda assim desceria do céu, para morrer por essa única pessoa. Porque Deus não nos ama apenas coletivamente. Ele nos ama também individual e particularmente. Portanto, ninguém ficará de fora de nossas atividades evangelísticas, principalmente os que não podem ver, ouvir, falar, locomover-se ou atinar com a razão.
2. Tempo determinado e paciência. Um dos argumentos daqueles que são contrários à inclusão de pessoas com deficiência, principalmente nas escolas, é que a presença delas retardaria o aprendizado das outras. No entanto, a experiência tem mostrado que, quando se procura fazer a inclusão, todos aprendem, cada um dentro do seu tempo, e conforme a sua capacidade.
Mesmo numa classe de Escola Dominical, frequentada por alunos sem qualquer deficiência, nem todos conseguirão memorizar o nome das doze tribos de Israel, ou dizer com perfeição a sequência dos livros da Bíblia. Alguns adultos nem conseguirão discorrer acerca dos atributos de Deus. No entanto, todos poderão vir a crer, se bem evangelizados e discipulados, que Jesus Cristo é o Filho de Deus. Infere-se, pois, que o evangelho exige e comporta a inclusão de todos, pois o Espírito Santo trabalha, em cada coração, as verdades que nos conduzem à salvação.
Na igreja, acolher e incluir pessoas com deficiência não significa criar um espaço separado para que, ali, elas aprendam a Bíblia. Assim como todas as ovelhas ficam dentro do aprisco para serem cuidadas pelo pastor, a pessoa com deficiência deverá ser ensinada junto aos demais crentes e, juntamente com eles, tomar parte no culto de adoração. A inclusão de pessoas com deficiência faz parte da comunhão perfeita entre os membros do corpo de Cristo.

III. MUDAR PARA RECEBER
Para ser inclusiva, a igreja deve: a) possibilitar o acesso de pessoas com deficiência ao templo e facilitar o trânsito por suas dependências, como salas de Escola Dominical, banheiros e cantina; e b) apresentar a mensagem evangelística levando em conta as limitações da audiência e os diferentes estilos de aprendizagem. Cada igreja, conforme a sua realidade, deve adaptar-se a fim de cumprir o que diz a lei dos homens (Lei 13.146, de 6 de julho de 2015) e a do Reino (Mc 16.15-18).
Existem inúmeros recursos que auxiliam a inclusão. Abaixo, destacamos os principais:
1. Rampas, elevadores e barras. Estes recursos destinam-se àqueles que usam cadeira de rodas. A inclinação das rampas seguirá as normas estabelecidas por lei. As portas dos elevadores, e também as demais passagens do templo, serão largas o bastante para possibilitar o trânsito dos cadeirantes. Todos os acessos da igreja serão sinalizados com o Símbolo Internacional de Acesso. Nenhuma área de circulação será obstruída com móveis. Nos banheiros, o lavatório terá altura apropriada, e ao menos um box com mobília adequada (vaso sanitário próprio e barras laterais).
2. Sinalização em relevo. São os pisos e mapas táteis que alertam as pessoas com deficiência visual quanto à topografia do ambiente. Ao sentir, com as mãos ou com os pés, as informações em relevo, o indivíduo poderá circular com maior segurança e independência pelos recintos. Essa sinalização adverte, entre outras coisas, quanto à presença de degraus, rampas, elevadores, portas, janelas e telefones públicos.
3. A Bíblia em Braile. O braile é um sistema de leitura e de escrita para pessoas com deficiência visual. Foi inventado pelo francês Louis Braille em 1827.
No Brasil, a primeira Bíblia em Braile foi lançada em 30 de novembro de 2002 pela Sociedade Bíblica do Brasil. Essa Bíblia é composta por vários volumes e está disponível na Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Pessoas, bibliotecas e instituições de apoio podem se cadastrar nos programas sociais da SBB e receber os volumes gratuitamente.
4. A linguagem brasileira de sinais, ou Libras. É um sistema linguístico que comunica fatos, conceitos e sentimentos por meio de gestos, expressões faciais e linguagem corporal. Essa língua, que possui regras gramaticais próprias, é a usada pela maioria das pessoas com deficiência auditiva no Brasil, com pequenas variações regionais.
Na igreja, os cultos e aulas de Escola Dominical podem ser facilmente traduzidos à linguagem brasileira de sinais por um obreiro treinado. Ações evangelísticas em hospitais e centros de apoio às pessoas com deficiência auditiva também podem ser realizadas de forma mais proveitosa se os crentes enviados souberem transmitir as Boas-Novas em Libras.
O acesso ao aprendizado das Libras felizmente é facilitado pela internet. É possível achar bons manuais, dicionários de Libras e vídeo-aulas gratuitos. A professora Siléia Chiquini, da Assembleia de Deus em Curitiba, vem desenvolvendo um grande trabalho junto aos surdos, por meio do Ministério Mãos Ungidas. Na internet, ela compartilha seu trabalho e experiência com os que desejam fazer a voz divina bem audível aos que não podem ouvir a voz humana.
5. O professor mediador. A fim de que o ensino bíblico seja inclusivo, as classes de Escola Dominical não devem agrupar, em uma sala à parte, as pessoas com deficiência, ou com transtornos que dificultem o aprendizado. Entretanto, os alunos com deficiência precisam, em sua maioria, de maior atenção e cuidados. Nesse processo, o professor mediador é o responsável por adaptar à realidade do aluno com deficiência o conteúdo que o professor regente transmite à classe e as atividades realizadas pelos demais educandos.
O mediador deve considerar a limitação do aluno especial, o seu ritmo e estilo de aprendizagem. Esse profissional também é responsável por facilitar a interação social do aluno com deficiência, evitando que fique isolado dos demais. Se o nosso objetivo é incluir a todos, devemos estimular e treinar pedagogos, didatas e obreiros a que se dediquem a esse ministério. É uma tarefa que demanda não apenas conhecimentos bíblicos, mas igualmente instruções pedagógicas, didáticas e psicológicas específicas. Hoje, graças a Deus, contamos com profissionais competentes entre os membros de nossas igrejas, que muito poderão ajudar-nos no cumprimento dessa missão. Portanto, ninguém ficará de fora do Plano da Salvação.

IV. EXEMPLOS BÍBLICOS DE INCLUSÃO
Por toda a Bíblia, encontramos personagens com algum tipo de deficiência. No entanto, é maravilhoso observar a obra divina na vida de cada um deles, restaurando-lhes a dignidade, salvando-os e até restabelecendo-lhes plenamente a sanidade física e mental. Vejamos alguns deles. Ao conhecer melhor suas histórias, concluiremos que é possível, sim, incluir a todos no Reino de Deus, pois o Pai Celeste não deseja que ninguém fique de fora.
1. A inclusão de Mefibosete. Neto de Saul, Mefibosete ficou coxo aos cinco anos quando sua ama, tentando salvar-lhe a vida, deixou-o cair (2 Sm 4.4). No capítulo 9, a reação de Mefibosete ao chamado de Davi revela o que ele pensava de si mesmo, talvez por sua condição física: “Quem é teu servo, para tu teres olhado para um cão morto tal como eu?” (v. 8). Ao ser beneficente para com Mefibosete, Davi restaurou-lhe a autoestima. Mefibosete não viveria mais como um indivíduo qualquer e sem importância. Todos os dias ele comeria pão à mesa de Davi, como se fora um príncipe.
Segundo a Lei de Moisés, o jovem Mefibosete não poderia exercer o sacerdócio, por causa de sua deficiência física. Todavia, Deus o honrou de tal forma, que veio a estar à mesa de Davi. O Pai Celeste não discrimina a nenhum de seus filhos. Ao aceitarem Jesus como Salvador, as pessoas com deficiência passam a ser filhos de Deus, “logo, herdeiros também, herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo” (Rm 8.17).
2. Parábola das bodas. Em Mateus 22.1-14, Jesus conta a história de “um certo rei que celebrou as bodas de seu filho”. Ele enviou os seus servos a chamar os convidados que, pretextando afazeres diversos, ignoraram-lhe o convite. Novamente o rei enviou os servos a trazer os convidados, porém “eles, não fazendo caso, foram, um para o seu campo, e outro para o seu negócio; e, os outros, apoderando-se dos servos, os ultrajaram e mataram” (vv. 5,6). O rei, então, decidiu trazer às bodas todo aquele que seus servos encontrassem pelo caminho, “e a festa nupcial ficou cheia de convidados” (v. 10).
O rei poderia ter ordenado aos servos que fossem “às saídas dos caminhos” e distribuíssem, a todos quantos encontrassem, o jantar preparado, os bois e cevados já mortos. Contudo, preferiu trazer “os pobres, e os aleijados, e os mancos, e os cegos” ao seu palácio (Lc 14.21). Graças à sua inclusão, a cerimônia ganhou vida, alegria e muita beleza.
3. Acenos e uma tábua de escrever. O sacerdote Zacarias, ao receber de Gabriel a notícia de que sua esposa daria à luz um filho, não creu. Por isso, ficou mudo até o dia em que se cumpriram as coisas anunciadas pelo anjo. Observe, em Lucas1.21-23, que a mudez de Zacarias não o impossibilitou de comunicar-se com as pessoas que estavam no Templo. Por acenos, o sacerdote conseguiu fazer-se entender. Alguns versículos à frente, vemos mais um recurso usado por Zacarias: “E, pedindo ele uma tabuinha de escrever, escreveu...” (v. 63).
O que se conclui da narrativa sagrada? Todos, apesar de suas limitações, podem receber a comunicação do evangelho e, assim, experimentar a vida eterna. Se naquele tempo já era possível aos mudos se comunicar, hoje, com os recursos didáticos e tecnológicos de que dispomos, podemos integrar mais facilmente as pessoas com deficiência.
4. Uma figueira no lugar certo. Em Lucas 19, lemos sobre o encontro de Zaqueu e Jesus. “E, tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando. E eis que havia ali um homem, chamado Zaqueu... E procurava ver quem era Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. E, correndo adiante, subiu a uma figueira brava para o ver, porque havia de passar por ali. E, quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, viu-o e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, porque, hoje, me convém pousar em tua casa” (vv. 1-5).
Zaqueu estava em desvantagem, pois era de baixa estatura. Se a figueira não estivesse exatamente naquele lugar, ele não teria conseguido ver Jesus, por mais que se esticasse, ou ficasse na ponta dos pés. Assim como Zaqueu, muitas pessoas com deficiência querem ver a Jesus, e certamente frequentariam nossas igrejas se soubessem que os templos foram devidamente preparados para recebê-las.
5. Quatro amigos esforçados. Lemos, em Marcos 2.1-12, sobre a boa vontade de quatro homens em conduzir um paralítico a Jesus. Esse quarteto não apenas era esforçado, mas tinha fé. Eles sabiam que Jesus era tudo o que o paralítico precisava (v. 5). Por isso, “descobriram o telhado onde estava e, fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico” (v. 4).
Esses homens nos ensinam que não basta ter um templo adaptado. É preciso ter fé e força de vontade o bastante para, literalmente, buscar as pessoas e levá-las ao local onde a salvação está.

V. OS VELHOS TERÃO SONHOS
“O ornato dos jovens é a sua força; e a beleza dos velhos, as cãs” (Pv 20.29). Que versículo maravilhoso. A Palavra de Deus é tão inclusiva, que vê os cabelos brancos não como decadência, mas como beleza, honra e triunfo. O Pai Amado nos inclui desde o berço à sepultura, pois nos ama com um amor inexplicável e eterno. E, quando nossa vida, aqui, cessar, não seremos esquecidos, pois Ele nos receberá em suas mansões.
1. As Boas-Novas aos idosos. A mensagem da Salvação deve ser pregada aos idosos nos asilos, hospitais, praças públicas e, também, por meio do bom testemunho de seus filhos e netos que, em vez de olhá-los como peso morto, hão de vê-los como lembrança viva de um tempo que não precisa ir embora. No entanto, a fragilidade da vida e a iminência de seu término devem impulsionar-nos a evangelizar os idosos “a tempo e fora de tempo” (2 Tm 4.2), não os admoestando asperamente, mas “como a pais” e “como a mães” com todo amor e devoção (1 Tm 5.1,2).
Não somente a alma dessas pessoas de cabelos brancos é preciosa a Deus, mas também o seu trabalho. Em sua velhice, elas podem fazer o Reino de Deus avançar, anunciando a esta geração e a todos os vindouros, as maravilhas do Senhor, sua força e poder (Sl 71.17,18).
2. Alzheimer e demais doenças relacionadas à idade. Como falar de Cristo a pessoas que já não se lembram dos seus familiares e nem de si mesmas? Como fazê-las entender o Plano da Salvação e levá-las a Jesus, se lhes falta autonomia para alimentar-se, tomar remédios, ou banhar-se? Diante de tal cenário, resta à igreja ter fé suficiente para obedecer à ordem de Jesus ao pé da letra: pregar “a toda criatura”. E, novamente, os conselhos de Paulo a Timóteo aplicam-se: “a tempo e fora de tempo”, com amor e paciência, não sendo ásperos, mas como a pais e como a mães .
Ao expormos a mensagem de salvação às pessoas com Alzheimer, é preciso crer que “a fé vem pelo ouvir” (Rm 10.17). Com paciência, devemos esperar o que não vemos, e confiar na obra do Espírito Santo:
Porque, em esperança, somos salvos. Ora, a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê, como o esperará? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos. E da mesma maneira também o Espírito ajuda as nossas fraquezas; porque não sabemos o que havemos de pedir como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que examina os corações sabe qual é a intenção do Espírito; e é ele que segundo Deus intercede pelos santos. E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados por seu decreto. (Rm 8.24-28)
Mesmo em sua ausência da realidade, os idosos, ou pessoas com demência, devem ser honradas: “Diante das cãs te levantarás, e honrarás a face do velho, e terás temor do teu Deus. Eu sou o Senhor” (Lv 19.32).
No episódio narrado em Gênesis 9.20-27, Noé não estava doente, nem sofria de demência. Contudo, ao embebedar-se, tornou-se mentalmente vulnerável e inclinado a agir fora da razão. Por isso, “descobriu-se no meio de sua tenda” (v. 21). Quando Noé despertou do vinho e soube o que seu filho menor lhe fizera, o amaldiçoou. A atitude jocosa de Cam alerta-nos a sermos respeitosos para com os idosos, mesmo que eles ajam de forma contrária a um comportamento socialmente aceitável.
Conclusão
No ano de 2014, fiquei internado por um espaço de dois meses. Nesse período, minha esposa, Marta Doreto, teve oportunidade de evangelizar diversos anciãos no Hospital Barra D’Or, no Rio de Janeiro. Alguns daqueles velhinhos já estavam em estado terminal; seus momentos de lucidez eram raríssimos. Sabendo disso, minha esposa orou, pedindo a Jesus que eles despertassem, ainda que por alguns poucos minutos, para que ela lhes pregasse o evangelho.
Foi assim que minha esposa conseguiu ganhar alguns daqueles anciãos para Jesus. Alguns se comunicavam apenas mexendo as pálpebras, respondendo afirmativamente às perguntas: “O senhor crê no que eu acabei de ler na Bíblia, que Jesus, o Filho de Deus, morreu e ressuscitou para salvá-lo de seus pecados? Quer recebê-lo como seu Salvador? Deseja que eu faça uma oração em voz alta, confessando Jesus como Salvador, enquanto o senhor a repete com o coração?”.
Um desses queridos velhinhos era um judeu de 103 anos e, segundo informaram à minha esposa, aquelas três leves piscadas às suas indagações foram os únicos sinais de comunicação dele em muito tempo. Um mês depois, ele foi para o céu com Jesus.
Não podemos ver os cabelos brancos como empecilhos à pregação da mensagem da cruz, mas como a derradeira oportunidade que um ancião ainda tem de receber Jesus como seu Salvador pessoal. Por isso, incluamos a todos em nossas ações evangelísticas, a fim de que todos, a tempo e a fora de tempo, recebam Jesus.

Autor:  Claudionor de Andrade




Lição 11: Profecias da Consumação da História (Jovens)


O livro de Isaías, por sua amplitude, insere-se no quadro das peças fundamentais da literatura profética, oferecendo um valioso conteúdo histórico-teológico que nos permite fazer uma tríplice aplicação, ao mesmo tempo em que exige de nós um posicionamento a respeito da relação com Deus, com o próximo e com a natureza que nos circunda. Essa tríplice aplicação baseia-se no seguinte:
a) Apesar de não ser um livro histórico propriamente dito, permite-nos conhecer, de maneira simplificada, uma parte da história dos Israelitas com Deus e com outros povos. O texto fala resumidamente do contexto religioso, histórico, político e social. Nessa breve história, o livro nos possibilita enxergar a graça, a misericórdia, a justiça e a soberania de Deus, que se traduz no amor de Deus por Israel e/ou pela humanidade como um todo.
b) Apesar de nos remeter a um período muito antigo (do séc. VIII ao séc. IV a.C.), a voz de Isaías ecoa de modo significativo nos ouvidos da igreja de hoje. Ele direciona a nossa atenção para nossa história do dia a dia, chamando-nos a repensar nossa prática cristã não só dentro das igrejas ou comunidades a que pertencemos, mas também a irmos além, a entender que Deus nos chama para fora, para o mundo, para proclamar o Reino dentro de nossas teias sociais, para apontar que existe um Deus soberano em meio à pluralidade religiosa e proclamar justiça num mundo onde a injustiça é o que dita as normas.
c) Por ser também um livro de caráter apocalíptico, ao lê-lo, somos levados a viajar no tempo e perceber que tudo ao nosso redor é refém da finitude. Por mais magnífico e importante que seja, tudo algum dia deixará de existir, se tomará pó; tal como houve um começo, também haverá um fim. Sob esse olhar apocalíptico, alguns questionamentos sobre o fim nos são impostos. Nesse quesito e sob esse ponto de vista se desenvolve esse capítulo de Isaías, oferecendo-nos algumas respostas que veremos mais adiante.
Os capítulos 24 a 27 compõem uma parte do chamado “apocalipse de Isaías”. Tal como Daniel e Apocalipse, essa seção de Isaías não é fácil de ser compreendida por conta do gênero literário apocalíptico que a constitui. O gênero apocalíptico é “uma narrativa na qual uma visão reveladora é concedida a um ser humano, na maioria das vezes por meio da intervenção [...] sobrenatural ou acima da realidade humana”. Essa narrativa geralmente termina com o anúncio do julgamento divino ou com uma mensagem de esperança de um mundo melhor, no qual o mal não existe.
Os textos apocalípticos comumente são marcados por sofrimentos, perseguições, domínio de um povo sobre o outro, extrema decadência moral, um forte descaso religioso ou apostasia (abandono das ordenanças divinas que tem, como consequência, o sofrimento do povo). Geralmente, o profeta dirige-se “àqueles que vivem em tempos de perseguição e sofrimento desesperado que chega a ser visto como a corporificação do mal supremo”.
Às vezes, confunde-se o apocaliptismo ou apocalipcismo com a escatologia (tradicionalmente definida como o estudo das últimas coisas). Por serem tão próximos e, de certa forma, andarem entrelaçados, a razão dessa confusão é, de certa forma, coerente, porque o que as difere é extremamente tênue. Pode-se pensar que um (o apocalipse) está contido na outra (escatologia). Enquanto o gênero apocalíptico em meio aos sofrimentos do povo propõe-se a revelar a promessa de livramento por meio da intervenção divina, a escatologia se propõe a mostrar uma nova era após esse livramento. Por isso, vale voltar maior atenção ao apocalipcismo, que é o gênero literário que dá embasamento aos capítulos desta seção.
Apesar de esses capítulos serem conhecidos como uma parte do “apocalipse de Isaías”, eles não são compostos unicamente do gênero apocalíptico; eles reúnem “profecias, cânticos e orações. Cada um desses gêneros tem sua própria força e sua combinação que fazem do texto uma sinfonia querigmática” muito mais valiosa porque o profeta é usado por Deus para se referir ao julgamento de Deus para com Judá, mas também se refere ao fim dos tempos apocalípticos e escatológicos. Portanto, trata-se de uma profecia que vai muito além dos dias subsequentes a Isaías. É sob essa hermenêutica dupla que este capítulo se desenvolverá.

I - O JULGAMENTO E A SALVAÇÃO
Isaías faz anúncio da destruição de Tiro por causa do mal que os seus habitantes praticavam, por serem arrogantes e por se exaltarem em relações a outros povos (Is 23.8-9). O profeta anuncia que o mesmo sucederá com todos os povos da terra por causa da maldade que fizeram e “da desaprovação de Deus em relação a esse mal.” O capítulo 24 pode ser visto como o capítulo da proclamação dos castigos, dos anúncios da devastação e do preparo do povo para o sofrimento que vai assolar a terra; tal como em Génesis (Gn 6.11-13), onde Deus anuncia à Noé a destruição da terra com o Dilúvio por causa da maldade do ser humano que havia se multiplicado sobre a terra. A terra, nesse trecho, não é a terra como um todo. O texto faz menção de Israel que era o Reino do Norte e de Judá que era o Reino do Sul. Porém, num contexto futuro, aplica-se também a toda a terra.
1. Causas do julgamento divino
O povo que é conhecido como povo de Deus estava vivendo em grande desobediência. Num período em que os seus reis eram dados à idolatria, estabeleciam alianças com outros povos sem o consentimento de Deus e não davam ouvidos a orientações que Deus lhes dava por meio dos seus servos, os profetas, como nos mostra o capítulo 7 de Isaías. Viviam também um período de grande sincretismo por conta das alianças ou mistura com outros povos. Deus, sendo plenamente justo e zeloso nas suas ordenanças, dá a conhecer ao povo que, por conta de todas essas práticas, eles serão devastados e dispersados, serão levados a servir como escravos em outras terras, serão subjugados pelos assírios (Reino do Norte) e pelos babilónios (Reino do Sul).
O profeta Isaías ensina que a relação entre Deus e a humanidade não se estabelece pela via de favoritismos. Não existem os privilegiados de Deus, no que diz respeito ao juízo. Para Ele, existem apenas seres humanos que, de acordo com a tradição cristã, são divididos entre criaturas (toda a raça humana) e filhos (os que, além de serem criaturas, receberam Cristo como senhor e salvador conforme João 1.12). “As distinções sociais não fornecem nenhum escape do juízo divino”. Por isso, o profeta afirma: “E o que suceder ao povo sucederá ao sacerdote; ao servo, como ao seu senhor; à serva, como à sua senhora; ao comprador, como ao vendedor; ao que empresta, como ao que toma emprestado [...]” (Is 24.2).
A corrupção havia se expandido por todas as camadas sociais. As distinções sociais diante de Deus tomam-se irrelevantes. Ninguém é melhor que o outro por conta da sua posição social ou cargo religioso. No juízo divino, as riquezas e o poder não fazem diferença, não tomam ninguém mais ou menos humano, não fazem de ninguém pessoas boas ou más. Por isso, Deus julga todos com a mesma medida, e cada um pagará conforme os seus atos.
Como cristãos, entendemos que as ordenanças e os juízos de Deus são verdadeiros e imutáveis. Em Deus, não há contradição, não há mudança nem sombra de variação (Tg 1.17). Por isso, Isaías (24.3) afirma claramente que a destruição da terra era iminente e certeira porque foi Deus quem falou. Ao dizer que a destruição seria verdadeira, ele queria chamar a atenção de um povo para o qual os desígnios não eram tão relevantes, um povo que praticamente havia escolhido viver uma vida longe da presença de Deus.
Interessante notar que, apesar do grande desinteresse pelas questões religiosas, num momento em que as orientações divinas não eram tomadas como relevantes (como neste caso), Isaías escolheu ir por um caminho diferente, falar o que o povo não gostaria de ouvir, pois, tal como nós, ninguém gostaria de receber um aviso de que haveria de ser destemido. Isaías, porém, em obediência a Deus, age assim.
Podemos tentar imaginar o estado de ânimo do povo. A maioria, talvez, por desconsiderar as palavras que estavam sendo proferidas, continuava vivendo as suas vidas sem preocupação nenhuma. Outros, por entenderem que essas palavras eram verdadeiras, possivelmente estavam afoitos e desanimados. Talvez olhassem um para o outro e perguntassem: “O que faremos?”, “O que será de nós?”, “O que será de nossos bens?”, “O que faremos com nossas fazendas, nossos carros, nossos animais, nossos plantios?”. Outros, talvez, que houvessem acumulado tantas riquezas, perguntassem: “E agora? De que me servirá tudo isso se o fim é iminente?”. A Bíblia afirma que a terra estava murcha, sem forças (Is 24.4).
Aqueles que eram príncipes e nobres, que se autopromoviam, achando-se melhores que outros eram acometidos de tristeza e chegavam a adoecer as suas almas, porque percebiam que não tinham como fugir das mãos do Altíssimo. Podemos perceber que a descrição ultrapassa qualquer coisa que jamais aconteceu. Fazendo uma similaridade com o livro de Apocalipse, somos levados a apontar para o temível futuro do mundo, uma previsão do que sucederá antes do Reino de Deus ser plenamente estabelecido.
Deus, sendo um justo juiz, ao estabelecer o seu juízo, mostra as razões pelas quais somos e seremos julgados, pois Ele não é um Deus sádico, não castiga a humanidade por prazer. Ele o faz pedagogicamente. Por isso, o texto faz menção de que o povo será castigado por transgressão aos estatutos, por violação das leis e por quebra das alianças perpétuas. Esse castigo pode ser comparado a um retomo ao caos, onde desvanece a alegria; assim, o vinho, símbolo da alegria, está em falta, as vinhas murcharam, não há sons de alegria, o povo não tem mais razões para festejar, o prazer já não se faz presente na cidade. Tudo o que havia de bom, que servia de estímulos para a vida, que gerava esperança foi desolado, conforme a profecia predisse.
2. Como será o julgamento
A desolação da terra, segundo o profeta, tomar-se-á dramática e completamente assustadora. O terror assolaria os moradores da terra e não haveria como escapar, pois quem tentar escapar do terror cairá na cova, e quem tentar escapar da cova cairá no laço (Is 24.18). Não há quem fuja do castigo de Deus. Ninguém consegue se esconder da sua face. Sua onisciência se sobrepõe a toda e qualquer artimanha do ser humano. Todo esforço empreendido para escapar das mãos de Deus, por mais engenhoso que seja, é completamente falho e insignificante e será reduzido a nada. Até os fundamentos da terra tremem. Fendas e rachaduras transformam a terra em pedaços. A Lua e o Sol também são sujeitos à destruição por causa da tamanha corrupção do povo. Isso mais uma vez toma evidente que nada está isento da desolação.
Diante das palavras tão vivas do profeta Isaías, o povo vê-se completamente entregue à destruição. Vê também que não há como justificar-se diante de Deus, pois seu juízo é reto. Em tal caso, restou ao povo a possibilidade de tomar consciência de seus maus atos, assumir a responsabilidade e buscar o caminho da esperança, encontrar um escape em meio ao caos que se havia instaurado, tentar achar o caminho do perdão, porque, apesar de Deus ser justo, também é perdoador, e o salmista diz: “[...] a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” (SI 51.17b). É isso que também se destaca no texto, um cântico de louvor como expressão de clamor por misericórdia.
A palavra julgamento no grego (krinein) quer dizer separar (Mt 13.24-30), ou seja, será a separação do bem e do mal daquilo que é verdadeiro do que é falso. Será o ato final de Deus, tanto na história de Israel quanto nos dias futuros, onde se preservará apenas aquilo que não foi contaminado pela maldade e pelo pecado. Esse período de julgamento se refere ao Juízo Final, na consumação de todas as coisas, quando todos os povos e nações comparecerão diante do trono de Deus para serem julgados por seus atos (Mt 25.31-33). O início do Juízo Final acontecerá logo após o Milénio, os mil anos de paz do governo mundial em que Cristo será o Rei e Satanás ficará preso. Porém, Satanás será solto logo após o fim do Milénio até ser julgado. Assim, o Juízo Final servirá para destruir a personificação do mal (Mt 25.41), conforme escrito no Apocalipse: “E o diabo, que os enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde está a besta e o falso profeta; e de dia e de noite serão atormentados para todo o sempre” (Ap 20.10).
3. O Destino dos maus
Para o Juízo Final, acontecerá a ressurreição dos maus de todos os tempos (Ap 20.5); os salvos já terão ressuscitado para estarem no Milénio com Cristo (Is 26.19; Ap 20.4). Ninguém escapará da desolação e do julgamento que sobrevirá, sejam ricos, pobres, sacerdotes, leigos (Is 24.2) e reis (Is 24.21). A terra, outrora abençoada, agora é maldita por causa da injustiça (Is 24.5) e será abalada, provavelmente num grande terremoto (Is 24.18-20), e o Sol e a Lua deixarão de brilhar (Is 24.23; Lc 21.25). Deus destruirá todo o mal, bem como todos os grandes poderes e impérios mundiais representados pelo leviatã, pela serpente sinuosa e pelo dragão (Is 27.1). Aqueles que forem julgados como maus serão separados definitivamente de Deus, a fonte da vida. Serão, juntamente com o Diabo e seus anjos, lançados no lago de fogo que arderá eternamente. Jesus disse que ali haverá choro e ranger de dentes (Mt 13.50), ou seja, um sofrimento intermitente, ilimitado e eterno.
4. O Destino dos bons
Aqueles que forem julgados como bons e forem justificados pelo sacrifício de Cristo serão levados para o Reino eterno, conforme Jesus mesmo afirmou:
“Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me” (Mt 25.34-36).
O Reino de Deus será um eterno desfrutar de alegrias, delícias e bem--estar, na presença de todos os salvos de todos os tempos. Todavia, o mais importante é que para sempre estaremos com nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, cuja presença encherá a terra com sua glória e majestade, conforme a visão de João: “E a cidade não necessita de sol nem de lua, para que nela resplandeçam, porque a glória de Deus a tem alumiado, e o Cordeiro é a sua lâmpada” (Ap 21.23).

II - CRISTO, O CENTRO DA HISTÓRIA
A Bíblia afirma que “nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele” (Cl 1.16). Portanto, toda a história da humanidade tem Cristo como seu precursor (Jo 1.1; Ap 13.8b), seu executor (Mt 28.18; Cl 1.17) e o seu fim (Fp 3.21). A criação, a redenção da raça humana e o futuro estão nas mãos dEle. Assim, Cristo é o centro da história humana, e qualquer ser humano somente se realiza plenamente nEle, pois Ele é o centro da história da salvação como seu executor, proclamador e mediador, permitindo a reconciliação com Deus através de sua morte na cruz.
1. O Início da história humana
Cristo esteve presente no início da criação de todas as coisas, nos tempos eternos com o Pai. Assim, a história da humanidade pode ser tematizada em: criação, queda, redenção em Cristo e final dos tempos com Cristo. Isso porque Ele é o que permeia a história humana com sua presença. Ele é o centro da história porque o povo escolhido entre a humanidade, Israel, não foi fiel à aliança feita com Deus e, com isso, um remanescente (a semente, o tronco) restante, que se concentra em Cristo na sua morte e ressurreição, tomou-se precursor de um grande povo composto por todas as tribos e nações, que confessam a Cristo como salvador.
2. A Redenção da história humana
O profeta Isaías, além de prever destruição, traz paradoxalmente um olhar de esperança, prevendo que o povo encontraria novo sentido de vida e renasceria, e aqueles que não tinham ânimo nenhum encontrariam possibilidades de experimentar o outro lado da face de Deus, sua face bondosa e misericordiosa.
As pessoas que verdadeiramente creem que Deus vai agir e realizar os seus propósitos na história, como o profeta nesse caso, podem, de modo antecipado, celebrar os feitos de Deus em suas vidas pelos olhos da fé, pois o inimigo do povo de Deus já foi arruinado e derrotado. No texto, o inimigo do povo são os assírios, pois estes oprimiam o povo de Deus e os subjugavam à escravidão. Por isso, aqui eles são descritos como pobres e necessitados; e os opressores são descritos como os estrangeiros. O povo, na voz de Isaías, expressa cânticos de louvor e adoração a Deus, na esperança de que este cativeiro não é eterno, pois Deus lhes enviaria um Libertador.
Da mesma forma que Deus providenciaria um escape para Israel, toda a história da salvação está virtualmente contida num único evento: no fato de que todo o passado da história da salvação tende para essa intervenção de Cristo na história através da cruz. Dela brota todo o presente e representa a garantia de todo o futuro da redenção. Entre a cruz de Cristo e a consumação final da história, dá-se a tensão e a hostilidade entre a instalação de seu Reino na terra “já-agora” e no “ainda não” do Reino que está por vir. A batalha decisiva e vitoriosa já foi travada na cruz do Calvário. Nesse momento, vive-se em hostilidade com o adversário, Satanás, que quer tentar destruir a obra redentora em nós, embora já tenha sido vencido. Estamos apenas aguardando o dia da vitória final em que se dará o arrebatamento da Igreja, que desencadeará o final da história humana.
3. Ele é para todo o sempre
Ele é antes do início, foi crucificado ontem, reina agora de forma invisível e voltará no fim dos séculos para estabelecer seu Reino eterno, onde a justiça e a paz reinarão perpetuamente. Algumas vezes, o fim dos tempos é entendido como um tempo caótico e terrível. Para alguns, poderá ser mesmo. Já para os que forem do Senhor, será um tempo em que as qualidades humanas serão potencializadas e nossa fidelidade ao Senhor não sofrerá mais os percalços que temos hoje, pois Ele mesmo vai destruir toda infidelidade (Is 5.1-6), numa revelação completa da bondade e da grandeza de Deus, tirando a cegueira que nos impedia de enxergá-lo (Is 25.7).

III - O FIM DA HISTÓRIA
O Fim da História, em termos seculares, foi iniciada por Friedrich Hegel (1770-1831) que ensinava que, quando a humanidade alcançasse um ponto de equilíbrio com a ascensão do liberalismo e da igualdade, a história chegaria ao fim. Essa ideia foi retomada em tempos modernos por Francis Fukuyama, o qual defendia que, com o avanço do Capitalismo e o fim de regimes fascistas e do Comunismo, anunciava-se o Fim da História. A evolução económica, a democracia e a igualdade de oportunidades levariam todos a atingirem seus objetivos de vida, e a sociedade supriria todas as necessidades humanas. Portanto, não seria o fim cronológico da história, mas o fim de governos e regimes que não conseguem suprir as necessidades humanas ou que estão em desacordo com os valores ocidentais. E óbvio que a humanidade está longe desse ideal, porque tal ideal somente será atingível no governo ou no Reino de Cristo.
Quando se fala em consumação da história, fala-se do fim dela; e fim significa término e também alvo, ou seja, os filhos de Deus se esforçam (Mt 11.12) para atualmente estabelecerem seu Reino na terra (alvo). Porém, esse esforço só terá fim quando os céus e a terra passarem (2 Pe 3.10). Entretanto, o seu Reino será concretizado em plenitude somente no fim dos tempos, no término da história humana.
1. O Fim do sofrimento para o povo israelita
E interessante notar o paralelismo que há entre Is 25.8 e Ap 21.4. Após um período de grande sofrimento, de dor profunda e de grande desespero, Jerusalém, simbolizada pelo “monte Sião” em Isaías, entra em cena. Em Jerusalém, de acordo com Isaías, será feito um grande banquete com uma grande quantidade de comida e de vinhos magníficos. Porém, a similaridade toma-se mais evidente quando o profeta anuncia que Deus enxugará as lágrimas de todos os rostos e aniquilará a morte do meio do seu povo. A derrota final da morte simboliza salvação definitiva do povo de Deus. Esse paralelismo entre os dois textos corrobora a ideia de que essa seção faz parte dos textos que constituem o “apocalipse de Isaías”. Em sua profecia, Isaías tem em mente o cativeiro babilónico, pelo qual Judá haveria de ser subjugada. Num primeiro momento, Isaías é usado por Deus sob uma perspectiva pastoral, no sentido de oferecer consolo ao povo. Nos capítulos anteriores, o trabalho do profeta está mais voltado para anunciar o juízo divino ou a destruição do povo. Agora, em meio às dores do cativeiro, o profeta preocupa-se em restaurar a confiança do povo na proteção divina. “Em nenhum outro lugar, as Escrituras apresentam um exemplo melhor de consolo para dias difíceis” do que nesta profecia de Isaías.
O povo, outrora desprezado e oprimido, é chamado a confiar em Deus, pois Ele é quem humilha os altivos, referindo-se aos inimigos. Ao responderem a esse chamado, eles desfrutariam da perfeita paz, que é a dádiva dEle de bem-estar e completude, pois, em meio à situação em que o povo se encontraria, receber o anúncio de uma vida de paz é muito mais satisfatório do que qualquer outra coisa. Esse chamado a uma confiança perpétua tem sua lógica fundamentada na fidelidade de Deus, pois Ele nunca abandonou o seu povo. A ida deles ao cativeiro foi por conta da permissão de Deus, como um bom Pai que cria meios ou possibilidades de redirecionar o seu povo para a proposta de vida que Ele oferece.
Depois de o povo ter experimentado o juízo divino, o lado de Deus que nenhum ser humano gostaria de experimentar, chegaria o momento em que a ira de Deus contra os israelitas abrandaria. A ira de Deus não estaria mais contra os israelitas, que são simbolizados pela “vinha frutífera” ou “vinha aprazível”. Ou seja, Deus estaria mostrando seu agrado para com eles; porém, se o seu povo voltar a quebrar os estatutos e quebrar a aliança perpétua, que são simbolizados no texto pela erva daninha e por espinhos, então Deus os pisoteará e os destruirá por completo.
2. A História humana terá fim, a de Deus não
Deus está acima da história. Ele é um ser a-histórico, pois é eterno, porém seu Reino se estabelece na história humana. Por isso, tem início, mas nunca terá fim. No tempo determinado por Deus, a história humana e a vida na terra deixarão de existir e serão tomados pelos novos céus e pela nova terra (2 Pe 3.10-13). Entretanto, esse não será o fim da história daqueles que forem salvos, mas será a entrada destes na eternidade, a transição daquilo que é temporal para o que é eterno, a qual Jesus chamou de “vida eterna” (Jo 5.24). Na consumação da história, aquilo que é temporal terá o seu fim, será sugado pela eternidade como desnecessário; inclusive a Lei e a moralidade não precisarão mais existir. Viver-se-á o amor perfeito, que é o cumprimento da Lei, pois o amor cumpre a Lei antes que ela o exija, apontando para o caráter temporal e necessário da Lei enquanto estivermos na terra.
No Apocalipse de João, está escrito que não haverá templo na Jerusalém celestial, porque Deus habita nela; isso aponta para o fim da religião, pois esta nada mais é que a tentativa de se chegar (religare) a Deus, sendo totalmente desnecessária no estado perfeito da Vida Eterna em que Deus é tudo em todos.
3. A Nova Jerusalém é o início da nova história humana
O exílio ou cativeiro não está distante de nós. Ele pode ser traduzido em coisas simples que nos aprisionam e nos impedem de viver uma vida em que a dignidade humana é respeitada, uma vida onde há relações saudáveis com Deus, com o próximo e com a natureza, pois esse é o plano de Deus para o mundo. Assim sendo, é necessário que aconteça a consumação da história e que o Reino de Deus se estabeleça definitivamente. Esse Reino aponta para a nova Jerusalém, o lugar que Deus preparou para os salvos em Cristo, para passarem com Ele por toda a eternidade, na casa do Pai (Jo 14.1-4), desfrutando eternamente de seu amor. Ela será de uma beleza, de uma majestade e de uma glória indescritível (Ap 21.9-15). Mas a melhor coisa não é a magnífica cidade, e sim quem estará nela: nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Ansiemos por esse tempo.

Autor: Claiton Ivan Pommerening