Romanos
9.1-5
Em Cristo digo
a verdade, não minto (dando-me testemunho a minha consciência no Espírito
Santo): tenho grande tristeza e contínua dor no meu coração. Porque eu mesmo
poderia desejar ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus
parentes segundo a carne; que são israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e
a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as promessas; dos quais são os
pais, e dos quais é Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito
eternamente. Amém!
O Amor tudo Sofre...
“Porque eu mesmo poderia desejar ser
separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a
carne” (9.3). A fama que o apóstolo tinha de ser alguém que pregava contra
as tradições judaicas chegou aos lugares mais remotos. Paulo teve que
esclarecer algumas das suas posições com respeito à lei de Moisés para não
transparecer que ele era contra a mesma. Ele explicou que o problema não estava
na lei, que era de origem divina, mas naqueles que buscavam justificação por
meio dela.
Outra coisa
precisa ser ainda esclarecida: Paulo não era um antissemita. Ele não renegou
seu antigo povo. Aqui ele mostra que não só amava seu povo como também sofria
pela situação espiritual na qual se encontravam seus compatriotas. Não era um
mal ser judeu; pelo contrário, constituía-se um grande privilégio já que foi a
eles que Deus confiou seus oráculos. O que doía no coração do apóstolo era a
dureza de coração que havia cegado seus irmãos, impedindo-os de enxergar o
Messias que lhes fora prometido.
Romanos
9.6-13
Não que a
palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são
israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em
Isaque será chamada a tua descendência. Isto é, não são os filhos da carne que
são filhos de Deus, mas os filhos da promessa são contados como descendência.
Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá um
filho. E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque,
nosso pai; porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal
(para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa
das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá o
menor. Como está escrito: Amei Jacó e aborreci Esaú.
Duas Crianças, Dois Povos
Essa seção de
Romanos apresenta um dos temas mais profundos das Escrituras: a soberania de
Deus e a liberdade humana. No entanto, “é importante perceber logo de início”,
destaca Joseph A. Fitzmeyer, “nesta parte de Romanos, que a perspectiva de
Paulo é coletiva. Ele não está expondo a responsabilidade de indivíduos. Além
disso, ele não está discutindo o problema moderno da responsabilidade dos
judeus pela morte de Jesus. Nenhuma dessas questões deveria ser importada para
a interpretação destes capítulos”.
Com esse
entendimento em mente, devemos perceber que os versículos 6 a 13 apresentam o
argumento de que a escolha de Deus por Israel não se baseou nas obras, mas na
fé. O primeiro exemplo dado é o dos patriarcas. Nos versículos 6 a 9, temos o
caso de Ismael e Isaque, ambos filhos de Abraão. Deus, na sua soberania e
graça, escolheu Isaque e seus descendentes para a realização de seus
propósitos. Prevendo que alguém pudesse objetar que a rejeição de Ismael seria
totalmente justificável por não ser ele filho de Abraão e Sara, o apóstolo
apresenta outro exemplo — Esaú e Jacó. Ambos eram filhos de Isaque, todavia
Deus, na sua soberania, escolhera Jacó e rejeitara a Esaú. Essa escolha, que
não foi uma escolha para a salvação, foi feita quando eles ainda eram crianças
para que prevalecesse a eleição pela graça e não pelas obras.
Eleição Corporativa
No versículo 11
do capítulo 9 de Romanos, como foi mostrado no capítulo 7 deste livro, o apóstolo
usa pela primeira vez a palavra eleição. Essa palavra, como foi mostrado
anteriormente, é eklogé.
Esse termo aparece sete vezes no Novo Testamento grego, sendo quatro delas na
seção que vai do capítulo 9 ao 11 de Romanos. E, portanto, apropriado tratar do
seu uso aqui. Nesse contexto, ela é definida como sendo o propósito de Deus, em
Cristo, para salvar a humanidade. As outras referências são Atos 9.15, 1
Tessalonicenses 1.4 e 2 Pedro 2.10. À luz do contexto dessas passagens, que nas
epístolas são usadas em referência à igreja, fica bastante evidente que essa
palavra possui um sentido corporativo. Como foi demonstrado, esse sentido
coletivo é claramente percebido quando observamos que Paulo interpreta as
figuras de Jacó e Esaú em Romanos 9 à luz de Malaquias 1.2-4. Nessa última
passagem, Edom, outro nome de Esaú, é usado como referência a um povo, os
edomitas, e não ao indivíduo Esaú. Dale Moody destaca que “em Malaquias, Jacó e
Esaú não são indivíduos, mas grupos, como claramente indica a identificação de
Esaú com Edom (Ml 1.4). Jacó e Esaú há muito tempo estavam mortos como
indivíduos, de forma que isto é o que Dodd chamou de ‘um todo corporativo’. Da
mesma forma Jacó é tomado no seu sentido coletivo, o povo de Israel, e não a
pessoa de Jacó”. Argumento semelhante é apresentado pelo expositor bíblico
Harold L. Willmington. Willmington destaca que esse exemplo “não se refere aos
dois meninos, mas às nações que eles fundaram, a saber, Israel e Edom! Essa
citação não se encontra em Gênesis, mas em Malaquias 1.2-5. O profeta Obadias
nos diz, claramente, por que Deus odiou a Edom”.
A crença no
determinismo tem levado alguns a acreditarem que Romanos 9 afirma a soberania
divina e nega o livre-arbítrio. Para esses intérpretes, essa passagem ensina
que Deus escolhe arbitrariamente algumas pessoas e da mesma forma pretere
outras. Como já foi demonstrado, esse entendimento não reflete uma boa exegese
do texto. O escritor Roger Olson, conceituado teólogo e historiador da igreja,
destaca que essa interpretação equivocada sobre o capítulo 9 de Romanos “jamais
foi ouvida antes de Agostinho, e isso no século V. Toda a patrística grega
interpretava Romanos 9 de maneira diferente”. Olson ainda observa com muita
propriedade que “uma interpretação alternativa perfeitamente sensata diz que a
passagem de Romanos 9 não está se referindo a indivíduos ou à salvação pessoal,
mas a grupos e ao serviço. Deus é soberano em escolher Israel e então a igreja
gentia para que cumpram seus respectivos papéis em seu plano de redenção”.
A meu ver, há
ainda outro efeito colateral produzido pela crença na eleição incondicional.
Ela afirma que uma vez que uma pessoa foi salva continuará salva para sempre.
Para se manter de pé, esse ensino precisa atribuir um novo sentido a
determinados ensinos das Escrituras. E o caso, por exemplo, do ensino bíblico
sobre a “apostasia”, que nessa concepção teológica passa da esfera real para a
hipotética. Esse é, por exemplo, o sentido atribuído à passagem de Hebreus
6.4-6. De acordo com esse entendimento, o texto não se refere a um
acontecimento real, mas apenas hipotético ou que expressa apenas uma
possibilidade. Essa é, por exemplo, a posição defendida pelo expositor bíblico
Donald Guthrie, que acredita que Hebreus 6.4-6 trata de um “caso hipotético”.
Apesar de essa exegese ser a via mais usada na interpretação desse texto, não é
a mais contextualizada. Essa posição de Guthrie é negada, por exemplo, pelo
batista de convicção calvinista Millard J. Erickson. Erickson procura um meio
termo reconhecendo que Hebreus 6.4-6 realmente admite a possibilidade da queda
na fé. Para o expositor William Lane, essas pessoas [Hb 6.4-6] haviam
testemunhado “o fato de que a salvação era a realidade inquestionável em suas
vidas”. Um dos mais conceituados eruditos em Novo Testamento, I. Howard
Marshall, conclui afirmando que: “Um estudo das descrições oferecidas aqui em
uma série de quatro particípios (aoristo grego) sugere de modo conclusivo que
uma experiência genuína está sendo descrita”.
Romanos
9.14-33
Que diremos,
pois? Que há injustiça da parte de Deus? De maneira nenhuma! Pois diz a Moisés:
Compadecer-me-ei de quem me compadecer e terei misericórdia de quem eu tiver
misericórdia. Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas
de Deus, que se compadece. Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te
levantei, para em ti mostrar o meu poder e para que o meu nome seja anunciado
em toda a terra. Logo, pois, compadece-te de quem quer e endurece a quem quer.
Dir-me-ás, então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem resiste à sua
vontade? Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura, a coisa
formada dirá ao que o formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro
poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para
desonra? E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o
seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a
perdição, para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos
de misericórdia, que para glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem
também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios? Como
também diz em Oseias: Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada, à que
não era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu
povo, aí serão chamados filhos do Deus vivo. Também Isaías clamava acerca de
Israel: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o
remanescente é que será salvo. Porque o Senhor executará a sua palavra sobre a
terra, completando-a e abreviando-a. E como antes disse Isaías: Se o Senhor dos
Exércitos nos não deixara descendência, teríamos sido feitos como Sodoma e
seríamos semelhantes a Gomorra. Que diremos, pois? Que os gentios, que não
buscavam a justiça, alcançaram a justiça? Sim, mas a justiça que é pela fé. Mas
Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça. Por quê?
Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei. Tropeçaram na pedra de
tropeço, como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço e uma
rocha de escândalo; e todo aquele que crer nela não será confundido.
Coração de Pedra
Nos versículos
14 a 33, Paulo cita mais exemplos que ilustram como a graça de Deus se
manifesta dentro do seu propósito soberano. Primeiramente temos o exemplo de
Israel e o Faraó do Egito. A graça amoleceu a servidão de Israel ao mesmo tempo
em que endureceu o coração de faraó. O sol que derrete o gelo é o mesmo que
endurece o concreto. A lição trazida aqui por Paulo, observam os intérpretes da
Bíblia, é que “da mesma forma como a palavra de Deus endureceu Faraó quando ele
resistiu, ela endureceu os de Israel que não atenderam quando foram chamados
(9.7; cf. SI 95.7,8; Hb 3.7,15; 4.7). A resposta à questão da justiça de Deus é
que Deus é não apenas justo: cie é misericordioso e justo”.
Dizer que Deus
“endureceu” a Faraó, não permitindo que o governante egípcio não tivesse
nenhuma escolha nesse processo, não reflete o argumento do texto. Esse texto
não está falando no destino eterno das pessoas, mas da manifestação da
soberania e graça de Deus na concretização de seu propósito. O comentarista
Joseph A. Fitzmeyer comentando a expressão “endurece a quem quer” (Rm 9.18),
destaca que: “No AT, o endurecimento do coração de faraó é, às vezes, atribuído
a Deus (Êx 4.21; 7.3; 9.12) e, outras vezes ao próprio faraó (Ex 7.14;
8.11,15,28). O ‘endurecimento do coração’ por Deus é uma forma protológica de
expressar a reação divina à obstinação humana persistente contra Ele — uma
selagem de uma situação que Ele não criou. Não é, portanto, resultado de alguma
decisão arbitrária ou mesmo planejada por parte de Deus, mas o modo como o AT
expressa o reconhecimento divino de uma situação que emana de uma criatura que
rejeita o convite de Deus”. Essa passagem, portanto, não serve como fundamento
para que se afirme que Deus, no seu
grande amor, escolheu alguns para o céu enquanto preteriu a outros para o
inferno.
Norman Geisler,
apologista norte-americano, comenta Romanos 9.17 quando responde à pergunta:
Como poderia Faraó estar livre se Deus endureceu o coração dele? Geisler
responde:
Primeiro, em sua onisciência, Deus sabia
de antemão exatamente como o Faraó iria agir, e usou isso para realizar os seus
propósitos. Deus prescreveu os meios da ação livre, porém teimosa, de Faraó,
bem como o fim da libertação de Israel. Em Êxodo 3.19, Deus disse a Moisés: “Eu
sei, porém, que o rei do Egito não vos deixará ir, nem ainda por uma mão
forte”. Faraó rejeitou o pedido de Moisés e somente depois de dez pragas foi
que finalmente deixou o povo ir.
Segundo, é importante notar que Faraó
primeiramente endureceu o seu próprio coração. No início, quando Moisés
aproximou-se de Faraó com vistas à libertação dos israelitas (Êx 5.1), Faraó
respondeu: “Quem é o Senhor, cuja voz eu ouvirei, para deixar ir Israel? Não
conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir Israel” (Êx 5.2). A passagem que
Paulo cita (em Rm 9.17) é Êxodo 9.16, a qual, no contexto, refere-se à praga
das úlceras, a sexta praga. Mas Faraó endurecera o seu coração antes de Deus
afirmar o que afirmou. Somente porque Deus levantou Faraó, isso não quer dizer
que Faraó não seja responsável por suas ações.
Terceiro, Deus usa a injustiça dos
homens para mostrar a sua glória. Deus ainda considera Faraó responsável, mas
no processo do endurecimento do seu coração o Senhor usou Faraó para manifestar
a sua grandeza e glória. Deus às vezes faz uso de atos maus para obter bons
resultados. A história de José é um bom exemplo disso. José foi vendido por
seus irmãos, e mais tarde tornou-se o governante do Egito. Lá ele salvou muitas
vidas durante o tempo de fome. Quando mais tarde ele se revelou aos seus irmãos
e os perdoou, disse-lhes: “Vós bem intentastes mal contra mim, porém Deus o
tornou em bem, para fazer como se vê neste dia, para conservar em vida a um
povo grande” (Gn 50.20). Deus pode usar atos perversos para manifestar a sua
glória (veja também o que é exposto sobre Êxodo 4.21).
Os Dois Vasos
A metáfora dos
dois vasos em Romanos 9.19-24 parece ensinar um determinismo radical. Mas fica
apenas na aparência, pois o texto está longe disso. A literatura evangélica
registra que nos Estados Unidos um grupo que se autointitulava Batistas Presdestinarianos das Duas Sementes
advogava que esse texto comprovava por A + B que Deus havia feito um grupo para
a salvação e outro para a condenação. Eles fizeram seguidores. Algumas
observações que refutam essa exegese devem ser levadas em conta:
1. No texto de 2 Timóteo 2.20,21, Paulo usa uma analogia semelhante
quando se refere a alguns tipos de vasos. Ele até usa as mesmas palavras gregas
de Romanos 9.21-23, traduzidas como honroso e desonroso. Na passagem de 2
Timóteo 2.20,21, fica claro que esses vasos, que representam pessoas, podem se
consagrar ao verdadeiro culto a Deus. A metáfora, portanto, não exclui a
livre-escolha.
2. O termo grego usado por “preparado” citado na expressão “preparados
para a perdição” (Rm 9.22) é katertismena. A. T. Robertson, um dos mais
conceituados gramáticos de grego bíblico de todos os tempos, observa que esse
verbo “é o particípio perfeito passivo de katarizo, o verbo que significa “equipar” (veja Mt
4.21 e 2 Co 13.11), estado de estar preparado. Paulo não diz aqui que Deus fez
o que eles fizeram. Que eles são responsáveis pode-se ver em 1 Ts 2.15ss”. Em
outras palavras, Deus não foi a causa da condição na qual se encontravam esses
vasos. O tempo perfeito grego, que significa uma ação feita no passado com
consequências no presente, mostra que houve uma trajetória percorrida por esses
“vasos” até chegar aonde chegaram. Dale Moody destaca que isso indica que “no
caminho da perdição, certo estágio foi alcançado”. Isso significa também que
Deus foi paciente e misericordioso com um povo rebelde e contumaz até que
chegou o momento de executar a sua justiça. James Moffat, em sua clássica
tradução do Novo Testamento, captou bem o sentido desse texto: “Que quer dizer,
se Deus, embora desejoso de exibir sua ira e mostrar o seu poder, tolerou mui
pacientemente os objetos da sua ira, maduros e prontos para serem destruídos?”
O enfoque recai sobre a grande misericórdia e paciência divina.
3. O exegeta Joseph A. Fitzmeyer, ao comentar a palavra “querendo” em
Romanos 9.22, destaca que “embora alguns comentaristas (Jerônimo, Tomás de
Aquino, Barrett, Cranfield, Michel) entendam o particípio thelon de forma causal, ‘porque
quis’, parece melhor, pelo contexto (especialmente em vista da expressão ‘com
muita paciência5), entendê-lo de forma concessiva, ‘embora tenha querido’,
i.e., embora sua ira pudesse tê-lo levado a tornar conhecido o seu poder, sua
bondade amorosa o conteve. Deus deu a faraó tempo para que se arrependesse
[...] prontos para perdição: o
particípio perfeito expressa o estado no qual esses “vasos” se encontram —
‘prontos’ para o monte de lixo. Este versículo expressa a incompatibilidade
radical de Deus com os seres humanos rebeldes e pecaminosos. Ele contém,
também, uma nuança da predestinação, e a formulação de Paulo é mais genérica do
que o exemplo com o qual ele iniciou; é por isso que estas palavras foram
utilizadas nas controvérsias posteriores sobre a predestinação. Entretanto, não se deveria perder de vista sua
perspectiva coletiva”, (itálicos meus)
Romanos
10.1-21
Irmãos, o bom
desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação. Porque
lhes dou testemunho de que têm zelo por Deus, mas não com entendimento.
Porquanto, não conhecendo a justiça de Deus e procurando estabelecer a sua
própria, não se sujeitaram à justiça de Deus. Porque o fim da lei é Cristo para
justiça de todo aquele que crê. Ora, Moisés descreve a justiça que é pela lei,
dizendo: O homem que fizer estas coisas viverá por elas. Mas a justiça que é
pela fé diz assim: Não digas em teu coração: Quem subirá ao céu? (isto é, a
trazer do alto a Cristo)? Ou: Quem descerá ao abismo (isto é, a tornar a trazer
dentre os mortos a Cristo)? Mas que diz? A palavra está junto de ti, na tua
boca e no teu coração; esta é a palavra da fé, que pregamos, a saber: Se, com a
tua boca, confessares ao Senhor Jesus e, em teu coração, creres que Deus o
ressuscitou dos mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a
justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação. Porque a Escritura diz:
Todo aquele que nele crer não será confundido. Porquanto não há diferença entre
judeu e grego, porque um mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que
o invocam. Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como,
pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não
ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem
enviados? Como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam a paz, dos
que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedecem ao evangelho; pois Isaías diz:
Senhor, quem creu na nossa pregação? De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir
pela palavra de Deus. Mas digo: Porventura, não ouviram? Sim, por certo, pois
por toda a terra saiu a voz deles, e as suas palavras até aos confins do mundo.
Mas digo: Porventura, Israel não o soube? Primeiramente, diz Moisés: Eu vos
meterei em ciúmes com aqueles que não são povo, com gente insensata vos
provocarei à ira. E Isaías ousadamente diz: Fui achado pelos que me não
buscavam, fui manifestado aos que por mim não perguntavam. Mas contra Israel
diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente.
O Eco da Palavra de Deus
Essa seção que
se estende por todo o capítulo 10 de Romanos tem duas divisões principais. Na
primeira delas o apóstolo desenvolve o argumento de que a rejeição de Israel se
deu por conta da busca da justificação pelas obras e não pela fé. O apóstolo
mostra a impossibilidade da justificação pelos méritos da lei pela razão de que
o fim da lei é Cristo (v. 4). O expositor Charles Cousar destaca o fato de o
versículo 4 do capítulo 10 de Romanos estar traduzido na versão americana NRSV
como o “fim” ou “término” da lei. “Paulo havia insistido que a lei é santa,
justa e boa (Rm 7.12) e que testemunha acerca da justiça de Deus que é recebida
pela fé (3.21). Ele tinha dito que Deus atuou na morte de Jesus Cristo para
cumprir ‘o requisito da lei’ (8.4), sugerindo que a melhor tradução é ‘meta’ ou
‘propósito’.0 que Paulo está afirmando nesta leitura é que a própria lei não
tem outra coisa como fundamento senão Cristo como a base da justiça para todos
os que creem (1 Tm 1.4)”.
Ao assim fazer,
estavam buscando a sua própria justiça em vez de aceitarem a que lhes foi
outorgada por Deus em Cristo Jesus. Eles tropeçaram na lei. O segundo argumento
do apóstolo mostra que essa rejeição não se deu por falta de testemunho da
parte de Deus (Rm 10.8-21). Pelo contrário, as Escrituras eram a prova
documental das advertências que Deus lhes fizera no passado. Aqui os judeus
tropeçaram na palavra de Deus quando se recusaram ou se fizeram de surdos para
não ouvirem os ecos de sua voz.
Romanos 11.1-10
Digo, pois:
porventura, rejeitou Deus o seu povo? De modo nenhum! Porque também eu sou
israelita, da descendência de Abraão, da tribo de Benjamim. Deus não rejeitou o
seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias,
como fala a Deus contra Israel, dizendo: Senhor, mataram os teus profetas e
derribaram os teus altares; e só eu fiquei, e buscam a minha alma? Mas que lhe
diz a resposta divina? Reservei para mim sete mil varões, que não dobraram os
joelhos diante de Baal. Assim, pois, também agora neste tempo ficou um resto,
segundo a eleição da graça. Mas, se é por graça, já não é pelas obras; de outra
maneira, a graça já não é graça. Pois quê? O que Israel buscava não o alcançou;
mas os eleitos o alcançaram, e os outros foram endurecidos. Como está escrito:
Deus lhes deu espírito de profundo sono; olhos para não verem e ouvidos para
não ouvirem, até ao dia de hoje. E Davi diz: Tome-se-lhes a sua mesa em laço, e
em armadilha, e em tropeço, por sua retribuição; escureçam-se-lhes os olhos
para não verem, e encurvem-se-lhes continuamente as costas.
Deus Tem suas Reservas
Recorrendo
novamente ao método de diatribe, Paulo responde às possíveis objeções
sobre a rejeição de Israel. Essa seção introduz a figura do remanescente que
deu continuidade ao propósito eletivo de Deus. Se era um fato que Israel havia
falhado como dissera Paulo, então como ficariam as promessas que Deus fizera no
passado a seu povo? Elas se extinguiram? Não havia mais nada que Deus pudesse
tratar com Israel? O apóstolo mostra que a grande maioria de Israel havia
rejeitado a justiça que vem da fé em Cristo, mas que essa rejeição não era
total nem definitiva. Em meio a esse processo de rejeição, Deus sempre contou
com um remanescente fiel a quem escolheu. Como em Romanos 9.11, aqui a eleição
(gr. eklogê)
se deu inteiramente pela graça e não pelas obras (Rm 11.5,7). A graça sempre
tem suas reservas. Paulo cita seu próprio exemplo e do profeta Elias como
remanescente que foram fiéis a Deus.
Romanos
11.11-24
Digo, pois:
porventura, tropeçaram, para que caíssem? De modo nenhum! Mas, pela sua queda,
veio a salvação aos gentios, para os incitar à emulação. E, se a sua queda é a
riqueza do mundo, e a sua diminuição, a riqueza dos gentios, quanto mais a sua
plenitude! Porque convosco falo, gentios, que, enquanto for apóstolo dos
gentios, glorificarei o meu ministério; para ver se de alguma maneira posso
incitar à emulação os da minha carne e salvar alguns deles. Porque, se a sua rejeição
é a reconciliação do mundo, qual será a sua admissão, senão a vida dentre os
mortos? E, se as primícias são santas, também a massa o é; se a raiz é santa,
também os ramos o são. E se alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo
zambujeiro, foste enxertado em lugar deles e feito participante da raiz e da
seiva da oliveira, não te glories contra os ramos; e, se contra eles te
gloriares, não és tu que sustentas a raiz, mas a raiz a ti. Dirás, pois: Os
ramos foram quebrados, para que eu fosse enxertado. Está bem! Pela sua
incredulidade foram quebrados, e tu estás em pé pela fé; então, não te
ensoberbeças, mas teme. Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, teme que
te não poupe a ti também. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus:
para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a benignidade de Deus,
se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira, também tu serás cortado.
E também eles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados; porque
poderoso é Deus para os tornar a enxertar. Porque, se tu foste cortado do
natural zambujeiro e, contra a natureza, enxertado na boa oliveira, quanto mais
esses, que são naturais, serão enxertados na sua própria oliveira!
A Oliveira e seu Enxerto
O expositor
bíblico Lawrence Richards destaca que “a rejeição judaica da justiça pela fé em
Deus abriu espaço para um número muito grande de gentios a serem enxertados na
árvore enraizada na antiga aliança de Deus com Abraão. Esta não deveria ser
objeto de orgulho gentio, mas de advertência. Nunca abandone o princípio de
salvação pela graça através da fé”.
A exortação de
Paulo nessa porção das Escrituras é clara — os judeus, ilustrados pelo exemplo
da oliveira verdadeira, em razão de quererem cumprir a justiça divina através
das obras, foram rejeitados. A oliveira não foi arrancada, apenas teve seus
galhos quebrados e no lugar destes enxertados os gentios. Nenhum gentio podia
se gloriar desse fato porque, assim como os ramos naturais foram quebrados, o
enxerto da mesma forma poderia ser arrancado. Era, portanto, motivo de temor e
não de exaltação.
Romanos 11.25-36
Porque não
quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós
mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que haja a
plenitude dos gentios haja entrado. E, assim, todo o Israel será salvo, como
está escrito: De Sião virá o Libertador, e desviará de Jacó as impiedades. E
este será o meu concerto com eles, quando eu tirar os seus pecados. Assim que,
quanto ao evangelho, são inimigos por causa de vós; mas, quanto à eleição,
amados por causa dos pais. Porque os dons e a vocação de Deus são sem
arrependimento. Porque assim como vós também, antigamente, fostes desobedientes
a Deus, mas, agora, alcançastes misericórdia pela desobediência deles, assim
também estes, agora, foram desobedientes, para também alcançarem misericórdia
pela misericórdia a vós demonstrada. Porque Deus encerrou a todos debaixo da
desobediência, para com todos usar de misericórdia. O profundidade das
riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os
seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Porque quem compreendeu o
intento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele,
para que lhe seja recompensado? Porque dele, e por ele, e para ele são todas as
coisas; glória, pois, e ele eternamente. Amém!
A Graça Restauradora
Qualquer
exegese que não contempla uma restauração em massa que acontecerá com Israel no
futuro contradiz a argumentação de Paulo em Romanos 11.25-36. O escritor O.
Palmer Robertson gastou 200 páginas de seu livro argumentando que “todo o
Israel” citado por Paulo não significa “o todo Israel”. Explico. Palmer foi
minucioso na sua exegese a fim de provar que o projeto de Deus não é com o
Israel nação, mas com o Israel cristão. Em outras palavras, o projeto de Deus
não é com o Israel étnico, mas somente com o Israel eleito. No seu
entendimento, o “todo Israel” que Paulo citou não se refere à nação judaica,
mas a “todos os judeus eleitos em Cristo”. A referência seria, portanto, aos
judeus messiânicos que receberam a Cristo como Salvador. A exegese de Palmer
entra em rota de colisão com outros intérpretes de renome, como por exemplo,
Leon Morris. A meu ver, o argumento de Palmer se torna frágil quando o faz
depender quase que inteiramente da tradução da conjunção grega kai e do
pronome outos em
Romanos 11.26. Segundo ele, a tradução correta dessa expressão é “dessa forma”,
e não “e então” como traz a maioria das versões da Bíblia. Fundamentado nessa
convicção, ele completa: “a conclusão a que se pode legitimamente chegar é a de
que “todo Israel” refere-se a todos os judeus eleitos. Todos do verdadeiro
Israel de Deus, o eleito do Pai, serão salvos”.
A teoria de O.
Palmer Robertson é bem construída, mas não se enquadra naquilo que Paulo
procurou mostrar entre os capítulos 9 e 11 de Romanos. A palavra “todos” é
entendida pela grande maioria dos intérpretes como sendo uma referência clara
ao Israel étnico. E desse Israel étnico que Paulo vem falando como sendo amados
por causa dos patriarcas e não apenas a “todos” os israelitas eleitos (Rm
11.28). A exegese de Palmer ignora a expectativa escatológica claramente
mostrada pelo apóstolo nesse capítulo. No entendimento do apóstolo, o Messias,
que fora rejeitado, voltará novamente como Libertador, e quando ele voltar “apartará de Jacó as impiedade” (Rm
11.26). Esse versículo só tem sentido dentro de um contexto escatológico
futuro. Esse fato é claramente demonstrado por Paulo quando ele afirma que a
vinda do Messias Libertador acontecerá somente após haver se cumprido a
plenitude dos gentios. “Até que haja entrado
a plenitude dos gentios” (Rm 11.25). Isso evidentemente ainda não
aconteceu. Ao contrário da tese de Palmer, em que “todo Israel” se limita
apenas aos judeus messiânicos, o “todo Israel” de Paulo é uma referência ao
Israel étnico que se voltará em massa quando o Messias voltar.
A graça que
alcançou os gentios, a graça que alcançou os judeus messiânicos, é a mesma
graça que reservou um futuro glorioso para Israel. “Orai pela paz de Jerusalém!
Prosperarão aqueles que te amam” (SI 122.6).
Autor:
José Gonçalves


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