A profecia de
Isaías foi escrita para ensinar que o bem-estar adquirido à custa da exploração
do pobre desencadeia a opulência e a ganância, que são pecados que confrontam a
santidade de Deus. O cerne de todos esses pecados diz respeito ao sentimento de
orgulho, que desafia a soberania e a vontade de Deus. O resultado do orgulho é
o total descaso para com a Palavra de Deus e os valores espirituais nela
contidos. As implicações dessa atitude são viver como se Deus não existisse, em
completa ignorância intencional em relação a sua Palavra e propósitos. Isso
feito, o ser em rebelião dá vazão ao próprio ego, a fim de concentrar todas as
atenções em si mesmo. Quando o homem desviado de Deus vive para alimentar seus desejos,
empreende opressão aos que estão à sua volta. Diante disso, a mensagem do
profeta traz às claras os enganos da visão humana rebelada contra a vontade de
Deus.
I - A INJUSTIÇA E A OPRESSÃO DE UM POVO
Atualmente, a
palavra justiça significa o cumprimento de uma lei moral que leva em conta a
equidade e a igualdade entre todas as pessoas. Para o judeu, justiça era
sinónimo de seguir as exigências da Lei de Deus. O colapso da nação era
iminente para Isaías, por haverem pervertido o juízo ou trocado o que seria
justo pelo injusto. Situações como essa sempre acabam prejudicando aqueles que
não têm como se defender, como o fraco, o pobre, o órfão e a viúva (Is 1.17,
23). Os líderes privaram os pobres e oprimidos da justiça e ainda roubaram o
órfão e a viúva (Is 3.14; 10.2). Os dois reinos de Israel (Norte e Sul) tinham
saído da situação de pobreza para uma ascensão económica só comparável ao tempo
do rei Salomão. Mas, como geralmente acontece ainda hoje, o desenvolvimento da
agricultura e de outros bens só foi conseguido à custa dos injustiçados.
1. A opressão oficializada
Os tempos de
prosperidade de Judá trazem junto sua apostasia, embora a prosperidade não seja
necessariamente má. Parece soar estranho ser essa a denúncia do profeta Isaías
às autoridades e ao povo dessa nação. Se considerarmos que a prosperidade era
vista como bênção de Deus (SI 35.27), como entender essa profecia de juízo? Em
outras palavras, tais denúncias não tinham nenhum fundamento. Qual a origem
dessa suposta prosperidade? Pelo exposto na citação do salmista, os benefícios
do Senhor são para aqueles que amam a justiça. Assim, existe um aspecto que não
pode ser esquecido, o de que não pode haver prosperidade do Senhor sem a
obediência à sua justiça.
Em decorrência
desse enfoque, pode-se considerar, diante das injustiças em todos os níveis da
sociedade de Judá denunciadas pelo profeta, que essa prosperidade não vinha do
Senhor, mas sim a partir da exploração do pobre. No tocante a esse contexto,
nos dias da profecia, as autoridades de Judá viviam uma anarquia no governo (Is
3.4); os governantes agiam de forma imprudente, corrupta e leviana (Is 3.12);
quem tinha chances de oprimir alguém, o fazia deliberadamente (Is 3.5a); e foi
instalado o desrespeito contra o idoso (Is 3.5b). As autoridades, de acordo com
Paulo, são constituídas por Deus (Rm 13.1) para promover o bem, sendo ministros
de Deus para fazer justiça e para exercer a ira contra aquele que pratica o mal
(Rm 13.4). Todavia, as autoridades de Judá promoviam a injustiça e, consequentemente,
a desigualdade social.
Sempre
existiram desigualdades em Israel; mas no tempo dos profetas, elas adquiriram
grandes proporções. Houve um crescimento acentuado de distanciamento social,
político, religioso e económico entre os ricos e os pobres. Nesta linha de
pensamento, Deus está para tirar de Judá seu cuidado e proteção. Afinal, os
governadores e sacerdotes tinham grandes responsabilidades de guiar o povo de
acordo com a Palavra de Deus. Neste sentido, quando Deus confere privilégios a
pessoas ou grupos específicos, proporcionalmente os chama a grandes
responsabilidades, em decorrência do favor recebido. A partir de então, esses
escolhidos e separados devem servir e cuidar dos interesses dos mais
necessitados. A esse respeito, Jesus ensinou que “o maior entre vós seja como o
menor; e quem governa como quem serve” (Lc 22.26). Porém, as autoridades de
Judá não obedeciam a esse princípio; antes, exploravam os pobres numa opressão
oficializada.
2. A injustiça como instrumento de triunfo
As autoridades
e líderes de Judá tiravam proveito de sua posição privilegiada para se
enriquecer. Estabeleceram-se, então, práticas contrárias à justiça de Deus.
Contudo, usavam o nome do Senhor para enfatizar a prosperidade de Judá. A
respeito disso, tomavam o nome do Senhor em vão (Êx 20.7). Diante disso, o
mandamento ensina que os representantes de Deus e o povo não podiam tomar
alguma coisa sagrada e empregá-la de forma indevida. Por essa razão, as
autoridades e os líderes de Judá estavam desobedecendo ao mandamento. Afinal,
estavam tomando o nome santo de Deus com o objetivo de camuflar e ocultar suas
injustiças. Por isso, muito cuidado com o que fazemos em nome de Deus, pois o
engano do coração pode levar a cometer até mesmo erros graves em nome de Deus.
A partir desse contexto,
percebe-se a inversão de valores sintetizada nas decisões e atitudes dos
líderes de Judá. Ao tratar dos direitos e deveres do povo, esses líderes
legislavam em causa própria e, consequentemente, estavam enganando os cidadãos
de Judá, mostrando o caminho errado (Is 3.12). Assim, o profeta acusava as
autoridades e os líderes de Judá, por intermédio da profecia, que eles estavam
roubando, esmagando e explorando os pobres (Is 3.14-15). A esse respeito, Deus
ordena a seu povo que faça valer a justiça em benefício daqueles que não têm
voz (Pv 31.9), visto que o Senhor se levanta de seu trono devido a opressão do
necessitado e do gemido do pobre, para trazer segurança aos que o anseiam (SI
12.5). Os pobres também pertencem ao povo de Deus. Por esse motivo, Ele defende
a causa dos necessitados e castiga aqueles que defraudam o povo por meio da
extorsão.
3. A injustiça no mundo atual
Hoje, vivemos
dias parecidos com os de Isaías, a exemplo daquele contexto de Judá, em uma
sociedade altamente corrompida e com elevada desigualdade social, pecados esses
denunciados pelo profeta. Paulo nos adverte a respeito de “tempos trabalhosos”
dos últimos dias (2 Tm 3.1). Essa expressão traz a ideia do surgimento de
extremo desvio da Palavra de Deus, quando os falsos mestres parecem se
multiplicar. O apóstolo dos gentios descreve as principais características
destes homens sem Deus, que tem aparência de piedade, mas negam a eficácia dela
(2 Tm 3.5). Em outras palavras, esses mestres apresentam uma falsa aparência. A
partir de então, passa-se a perceber que algumas pessoas na atualidade se
encontram enganadas, contaminadas, alienadas e influenciadas por ensinos de
falsos mestres, que rejeitam a verdade do evangelho, ensinando mentiras, visto
serem homens amantes de si mesmos (2 Tm 3.2), que, em suas atitudes, exaltam a
injustiça. Deus reprova em sua palavra privar alguém de algo que lhe pertence
ou a que tem direito por meio da exploração (Lv 25.36).
A Bíblia
condena a preguiça e incentiva as pessoas a trabalharem (Pv 6.6). Esse aspecto
evidencia o propósito de Deus com o trabalho. Toda pessoa tem direito de
desfrutar os resultados de seu serviço, visto ser dádiva de Deus (Ec 3.13).
Portanto, o trabalho denota a bênção de Deus e sempre teve um papel fundamental
na cidadania e na dignidade do homem. Por isso, nos dias atuais, os
governantes, por meio de leis, precisam proteger e defender os direitos e
deveres dos trabalhadores. A Constituição Federal garante a todos os cidadãos
brasileiros o acesso ao trabalho justo e digno, que permita a integração social
e a distribuição de renda, coibindo a espoliação e exploração e,
consequentemente, punindo aqueles que praticam a injustiça.
Diante disso, a
Igreja tem a capacidade e a responsabilidade dadas pelo Espírito Santo, sendo
ela a representante do Reino de Deus e uma das respostas de Deus ao mundo que
sofre, de profetizar contra as injustiças nas esferas sociais, políticas,
religiosas e económicas. Os mecanismos de denúncias podem ser efetivados em
decorrência da política e da denúncia profética, como fez Isaías, como também
por meio de ações sociais que combatam as injustiças, os problemas e os
sofrimentos do povo em sua origem. Todo esse mal deve ser combatido pela
prática do bem. Isso se confirma no discurso de Paulo, que orientou os membros
da Igreja de Tessalônica, em seus relacionamentos, a nunca pagar ao outro mal
por mal. Antes, procurar sempre praticar o bem entre eles e para com todos (1
Ts 5.15). Nesse sentido, o testemunho toma-se o ponto chave do ministério
cristão (Mt 5.16). A capacidade para testemunhar vem por mediação do Espírito
Santo, que capacita o cristão a ser de acordo com a imagem e semelhança de
Cristo. “Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o
qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus
era com ele.” (At 10.38). Com base nessa verdade, a Igreja foi ungida para ser
o instrumento da justiça divina num mundo caído e corrompido pelo pecado.
II - A ARROGÂNCIA QUE CEGA
A principal
característica da arrogância é a cegueira. A arrogância só consegue pensar em
si mesma e é desprovida de todas as informações ao redor. A superioridade é o
sentimento do indivíduo arrogante. Sua vaidade impede de ver as outras pessoas
como iguais. Não considera Deus em seus caminhos justamente por só conseguir
enxergar a si mesmo como alvo de atenções. O arrogante estabelece suas próprias
leis que o beneficiam em detrimento do bem-estar coletivo. Para essa pessoa,
Deus é seu rival. Por isso, o Senhor condena a arrogância (Pv 8.13). Só os
humildes e quebrantados podem desfrutar da presença plena de Deus (Mt 5.8).
1. A descrição de arrogância pelo profeta
O profeta
descreve de forma clara que os atos de Jerusalém e Judá eram praticados em
rebelião contra Deus. Mesmo os líderes sabendo que o Senhor estava contemplando
seus atos, o desafiavam em público. Conforme a denúncia do profeta: “Porque
Jerusalém está arruinada, e Judá, caída; porquanto a sua língua e as suas obras
são contra o Senhor, para desafiarem a sua gloriosa presença. O aspecto do seu
rosto testifica contra eles; e, como Sodoma, publicam o seu pecado e não o
encobrem” (Is 3.8-9 - ARA). As lideranças políticas de Judá e Jerusalém
chegaram à certeza de que poderiam viver tranquilamente sem o senhorio de Deus.
A elite da religião e os anciãos, que eram tidos como pessoas de respeito,
achavam-se em conluio com o poder político. E, estando ensoberbecidos, agiam
como se Deus não existisse e, se pelo menos Ele existisse, era uma pessoa
desprezível e passível de ser zombada, estando presente a contemplar os atos e
palavras de escárnio. O resultado dessa arrogância é o desprezo pelas pessoas
mais fracas, explorando-as como se não fossem a imagem e semelhança de Deus. O
roubo aos pobres é denunciado pelo profeta de maneira veemente, delatando a
prática de tirar o alimento da mesa dos necessitados (Is 3.14-15).
Da mesma forma,
a disciplina de Deus alcançaria as mulheres da classe mais abastada de
Jerusalém. O profeta descreve o contraste que será observado entre o estado
atual e o vindouro na vida delas. Em vez dos perfumes, sentiriam o cheiro da
podridão dos mortos. Os vestidos preciosos seriam trocados por roupas de
escravos. A beleza daria lugar às cicatrizes provindas do período de angústia e
privações do cerco de Jerusalém. Acreditava-se que várias das joias e perfumes
descritos pelo profeta continham poderes mágicos de atrair bons fluídos e
espantar os espíritos maus. Esse modo de agir vinha das crendices populares
resultantes da prostituição cultual.
2. Um pecado abominável
A arrogância ou
orgulho é um pecado tão antigo e, ao mesmo tempo, tão atual que infecta a alma
de cada geração de seres humanos. É um atrativo castelo de pedras que resiste à
idade do homem. Trata-se de uma fortaleza invencível para qualquer indivíduo
que tem a petulância de escalá-la.
A principal
arma do orgulho é o poder. Desde Adão, todos os seres humanos possuem em si
mesmos uma voz que lhes impulsionam a desejar o poder, não se importando quais
sejam os meios, pois só assim será feliz e realizado. A voz ao ouvido de Eva
ainda soa a suposta traição de Deus ao esconder o poder da vista do Homem. O
desejo de poder foi o cerne da tentação no Éden. A violação do poder consiste
em pensar que se sabe ou que se pode mais do que Deus. O poder que Deus confere
ao homem na criação é a capacidade de cuidar e gerir a natureza. Mas o homem em
pecado viola esse princípio quando quer estender seu domínio aos outros homens,
ao ponto de controlar e explorar seus semelhantes.
Assim, quem
busca o poder de maneira descontrolada supõe que pode fazer os rumos de uma
instituição se desenrolar conforme sua vontade egoísta, seja esta organização
religiosa ou não. Quando o desejo de ter mais poder toma o coração do homem,
ele começa articular em força e astúcia, com o objetivo de alcançar e deter
mais poder. Há dois tipos de arrogantes: os zombadores de Deus e os aliados
dEle. O desprezo por Deus é evidente na vida de alguns que buscam o poder, por
saberem que Ele detém sua glória que não será dividida com a criatura. Por
outro lado, num mundo faminto de poder, há homens que dizem ser aliados de Deus
por almejarem o que Ele tem: todo o poder. Os aliados de Deus geralmente se
concentram nas esferas da religião, que é o espaço mais propício para se
alcançar o poder a partir da verdadeira fonte. Em nome de Deus, adquire-se com
facilidade o domínio dos corpos e consciências de outros indivíduos. Depois de
ter o coração embriagado pelo poder, o indivíduo não o devolve mais. É preciso
que isso seja tirado dele.
3. Os males do orgulho
A idolatria é
um pecado resultado do orgulho não só a partir da veneração aos outros deuses,
mas reside também no fato de criar um deus que atenda as paixões e desejos
humanos. Assim, criar um deus que atenda todas as expectativas humanas é o
desejo do indivíduo em pecado, pois, em rebeldia ao senhorio de Deus, a
fantasia pelo desejo de independência o impele aos ídolos, que figuram a fonte
dos caprichos pecaminosos do homem. Tem-se um deus passível de ser controlado e
que atende todos os desejos egoístas da humanidade. Esse deus se toma como nós.
Essa é a procura humana pelos ídolos que nada são (1 Co 8.4), com objetivo de
se tomar igual a Deus.
O indivíduo
intoxicado pelo orgulho tem dificuldades para empatia até mesmo com a própria
família. Todos os seus desejos são ocupados pela necessidade de autopromoção,
de manter e conquistar mais espaço. Essas pessoas sacrificam relacionamentos
familiares e fraternos para dedicar tempo e consciência na escada do
“reconhecimento”. A perda da sensibilidade em relação aos sentimentos das
pessoas é inevitável. Indivíduos embriagados de poder e orgulho transformam
pessoas de nomes para simples números. O orgulho tende ao acúmulo de poder e
tira proveito, explora e usa pessoas como objetos. Pode-se chamar isso de
cultura narcisista. O narcisista fantasia um conceito elevado dele mesmo,
imagina-se com ilimitado poder, inteligência, beleza, amor e sucesso. O
exibicionismo, a autoglorificação, o egoísmo, a divinização do ser, são
sentimentos que alimentam carências e fantasias de indivíduos orgulhosos.
O desprezo pela
mudança é outro sintoma de que nada vai bem com o coração orgulhoso. As velhas
estruturas devem ser substituídas a partir de quando se tomam pesadas demais
para responder as demandas da sociedade atual. O narcisista tem aversão a mudanças,
principalmente se a sugestão não partir dele, pois receia perder o controle. A
cegueira do poder desencadeia o sentimento de prepotência em relação ao seu
depósito de conhecimentos, mesmo que ultrapassados. Esse é um dos motivos de falência
das empresas e da irrelevância das instituições religiosas, quando engodadas
por orgulho e poder, nada tem a oferecer e nada tem a dizer à sociedade.
III - A MISERICÓRDIA E A JUSTIÇA DE DEUS
O profeta tem a
mente iluminada por Deus, que lhe possibilita uma tomada de consciência e
discernimento, um forte senso de justiça e o conhecimento dos grandes dilemas
do seu povo e do seu tempo. Isaías prediz a ruína de Judá e Jerusalém (Is 3.8).
No entanto, também profetiza a futura felicidade de Jerusalém (Is 4.2). A restauração
acontece por meio do juízo, castigo e purificação da cidade pelo Senhor, onde
toda a impureza e os crimes de morte serão exterminados (Is 4.4). Deste modo, a
glória de Deus cobre e protege o seu povo (Is 4.5). Diante desse cenário, os
cidadãos de Jerusalém exaltam a soberania de Deus e, consequentemente, a sua
justiça, que traz justificação, redenção e santidade a todos aqueles que se
arrependem dos seus maus caminhos.
1. O profeta prediz a ruína
Ruína significa
“aquilo que está quebrado e destruído” (Lc 6.49; At 15.16). A partir dessa
definição, pode-se imaginar a dificuldade do profeta de anunciar o juízo de
Deus, tendo em vista a prosperidade de Judá e Jerusalém. Essa vida próspera era
demonstrada na infraestrutura da cidade, belos edifícios e belas residências,
um esplêndido comércio com as mais variadas mercadorias e o poder público
oferecendo segurança para os cidadãos. As mulheres ricas andavam pelas ruas da
cidade com seus enfeites, colares, brincos, vestidos luxuosos e perfumes caros
(Is 3.19-24). Diante desse cenário de opulência, como pensar em ruína e
destruição? No entanto, o povo de Judá, com suas palavras e ações, estava
desafiando a Deus e ofendendo sua gloriosa presença (Is 3.8). A prosperidade da
elite dominante de Judá custou um alto preço, a espoliação e a opressão do
pobre. A consequência dessa atitude das autoridades e líderes de Judá se
estabelecia no juízo iminente de Deus.
Independentemente
da situação de prosperidade ou calamidade, o justo sairia bem. Todavia, o ímpio
iria mal. Deus chama seu povo para prestar conta dos talentos que recebeu (Mt
25.19). Todo abuso, omissão e injustiça cometidos, teriam que ser punidos
mediante a justiça de Deus. Todos aqueles que prosperaram por meio da opressão
e espoliação, não se importando com as necessidades dos pobres, estavam debaixo
da ira do Senhor (Is 3.14). Eles traziam sobre si mesmos o castigo da sua
própria maldade (Is 3.9). Outro dado importante remete à semeadura. Quem semeou
o que era mal colherá o mal. Consequentemente, o mal que fizeram aos outros
será feito contra eles (Is 3.11). Contudo, para os justos, havia promessas de
dias felizes, de sonhos realizados e satisfação com o fruto do trabalho (Is
3.10). Apartir do juízo, percebe-se a importância da justiça de Deus, a qual
determina o presente e o futuro de todo ser humano.
2. Humildade: símbolo da dependência de
Deus
A soberba fez
com que as autoridades e líderes de Judá se esquecessem de Deus. Uma das
características deste estado de espírito se mostra na autossuficiência. O amor
às riquezas é a raiz de todos os males (1 Tm 6.10) e tem levado muitas pessoas
à independência de Deus, formatando indivíduos narcisistas e egocêntricos. No
encontro de Jesus com o jovem rico, apesar do belo currículo apresentando pelo
rapaz, Cristo denunciou, por meio de seu olhar amoroso e perceptível, um vazio
no coração daquele homem. A denúncia foi clara: “falta-te uma coisa”. O que
faltava então? Vender tudo o que ele possuía e dar o dinheiro aos pobres, visto
que teria um tesouro no céu. Depois, deveria vir e seguir a Jesus. Contudo, o
jovem ficou abatido e afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas (Mc
10.17-31). A grande dificuldade desse jovem estava na soberba e
autossuficiência, visto que Jesus chamou a atenção que ninguém pode servir a dois
senhores; pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o
outro. O cristão não pode servir a Deus e as riquezas (Mt 6.24). Esse aspecto
evidencia onde se localizam as prioridades e os valores das pessoas, já que
onde estiver o nosso tesouro, aí também estará o nosso coração (Mt 6.21).
A humildade
nada mais é do que nossa humanidade reconhecida; querer ser humano é ser
humilde, querer ser como Deus é do maligno. A principal característica de Jesus
era a sua humildade como servo, evidentes em dois aspectos importantes: a
rejeição e o desprezo pelo seu povo (Is 53.1-2). No tocante a esse ponto, Paulo
destaca a atitude de Jesus como exemplo de proceder de todos os seus
seguidores. Ele comenta que, “embora Jesus sendo Deus, não considerou que o ser
igual a Deus era algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, vindo
a ser servo, tomando-se semelhante aos homens. E, sendo encontrado em forma
humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até à morte, e morte de cruz!”
(Fp 2.6-8 - NVI). Desse modo, Jesus conseguiu expressar toda a sua humanidade
baseada na humildade, pois Ele é manso e humilde de coração (Mt 11.28). A
humildade é símbolo da dependência de Deus. A partir desse conceito, pode-se
entender o discurso de Jesus sobre quem é o maior no Reino dos céus. Ele disse:
“portanto, quem se faz humilde como esta criança, este é o maior no Reino dos
céus.” (Mt 18.4 - NVI). Assim, quem não se tomar humilde e dependente do pai
como uma criança não poderá entrar no Reino de Deus (Mt 18.3).
3. A justiça de Deus
Deus reage
contra a injustiça, já que a justiça faz parte da natureza de Deus (SI 145.17).
A respeito disso, no contexto das escrituras vetero e neotestamentárias, o que
é creditado como justiça não são as
obras, mas sim a fé (Gn 15.6 - NVI). Essa justiça pela fé produz obras na vida
do justo em decorrência da graça de Deus. Esse conceito é evidenciado pelo
profeta Habacuque (Hb 2.4) e na teologia paulina (Rm 1.17). O justo viverá da
fé. Dessa maneira, a origem da verdadeira justiça se determina em Deus. Ele é o
criador, doador e sustentador da retidão, que estabelece princípios
fundamentais dessa justiça. Nesse sentido, os governantes e sacerdotes de Judá
tinham todas as condições dadas por Deus para estabelecer a justiça divina.
Eles, no entanto, provocaram o juízo do Senhor, ignorando seus preceitos justos
e estabelecendo a injustiça como instrumento de triunfo dos abastados de Judá.
Deus se utiliza
da boca do profeta para transmitir sua sentença ou seu juízo. No contexto dos
profetas, juízo diz respeito à execução da justiça de Deus num cenário social
corrompido e injusto. Esse aspecto evidencia o tempo em que Deus se manifesta
numa sociedade judaica totalmente corrompida e desviada de sua vontade, que,
por meio de seus pecados, mostra a verdadeira face das ilusões carnais. Alguns
profetas como Joel (2.1,11) utilizam o termo “dia do Senhor” como sendo esse
encontro dos pecadores com o Deus santo em execução do seu juízo. A função
profética sempre esteve junto com questões sociais e políticas. O profeta de
Deus é também porta-voz de uma mensagem que anuncia, denuncia e alerta diante
de situações presentes e conhecidas e, neste capítulo, o profeta denunciou a
injustiça e a arrogância. Que nossos corações sejam humildes diante de Deus
para reconhecer quando precisamos de arrependimento. Que nossa dependência de
Deus seja evidente em atitudes, palavras e pensamentos.
Autor: Claiton
Ivan Pommerening


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